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  • The article transcribed below was published in Brasilia’s main newspaper, the Correio Braziliense, on 25 July 1999, as part of the worldwide centennial celebration of Ernest Hemingway’s birth.

 

Ernest Hemingway:

Um gênio da objetividade

 

      Este ano celebramos no dia 21 de julho o centenário de um dos maiores escritores norte-americanos: Ernest Miller Hemingway, natural de Oak Park, Illinois. O pai de Hemingway era médico e entusiasta da caça e pesca, tendo compartilhado amplamente desses interesses com o filho. Depois de concluir a escola secundária, em vez de freqüentar a universidade, Hemingway foi trabalhar num jornal de Kansas City, Missouri como repórter. Este trabalho como jornalista não apenas lhe deu as ferramentas necessárias para se tornar escritor mais tarde como também marcou o seu estilo de forma permanente e indelével. Depois do início da Primeira Guerra Mundial, Hemingway tentou se alistar no exército mas foi rejeitado devido a um problema na vista. Ele não desanimou e depois de algumas tentativas conseguiu uma posição como voluntário da Cruz Vermelha, onde trabalhou durante a guerra como motorista de ambulância. Depois de sofrer ferimentos na Itália, alguns dias antes de completar 19 anos, Hemingway foi condecorado pelos italianos por bravura. Subsequentemente, ele trabalhou como correspondente estrangeiro do Toronto Star, jornal de Toronto, Canadá.

      A associação de Hemingway com os jornais, especialmente o Kansas City Star, onde ele obteve o primeiro trabalho e pôde desenvolver e aperfeiçoar suas habilidades como escritor, é de suma importância para a carreira deste novelista. A maneira jornalística de escrever influenciou sobremaneira o estilo de Hemingway. Ao contrário dos seus contemporâneos, muitos dos quais cultivavam um estilo complexo e recôndito, Hemingway, como bom jornalista, escrevia de maneira simples e objetiva. Sua meta era não somente escrever ficção que tocasse o leitor de forma verossímil e significativa, mas também comunicar da maneira mais autêntica e direta possível, estirpando da linguagem quaisquer termos ou construções supérfluas. Suas orações são curtas e claras, com poucos adjetivos ou advérbios. Os substantivos e verbos são físicos, tangíveis, concretos, repetidos freqüentemente na medida em que são necessários para obter o efeito desejado. O ritmo da prosa, possivelmente o aspecto mais discernível do estilo de Hemingway, é forte e tem a característica máscula e bem definida de uma cadência militar. A origem e inspiração deste estilo estão na econonomia, sobriedade e moderação da narração jornalística.

      Hemingway escreve de maneira simples e direta, tanto na construção lógica da narrativa como na estrutura das orações. Modesto e sucinto na prática de sua arte (algo que não foi na vida privada), ele reflete na economia das palavras o compromisso dos repórteres da época de “mostar” em vez de “contar.” Este aspecto claramente jornalístico da ficção de Hemingway é comprovado pelo próprio autor no romance Death in the Afternoon (Morte na Tarde), onde ele confessa que: “Me dei conta que minha maior dificuldade, além de saber o que eu realmente estava sentindo, em vez do que eu deveria sentir e do que me haviam ensinado a sentir, era escrever o que realmente aconteceu na vida real: quais foram os fatos verdadeiros que produziram a emoção que eu vivenciei... a coisa real, a seqüência de movimento e fato que produziu a emoção.”

      O desejo de “escrever o que realmente aconteceu na vida real” sobre assuntos de relevância para a condição humana levou Hemingway aos mais diversos lugares do planeta: à Itália, durante a primeira guerra mundial; a Paris, quando a capital francesa era o centro literário e cultural do mundo; à Espanha, durante a guerra civil; à África; a Cuba; à China, durante a invasão japonesa; e à Inglaterra, durante a Segunda Guerra Mundial. Nestes lugares ele teve a oportunidade de tecer relatos de estilo jornalístico que se desdobram sobre temas centrais para a experiência humana no século vinte: a guerra, o crime, o medo da morte, o amor, a perda. Traçou assim um esboço do que preocupava e afligia as pessoas de sua geração e descreveu um mundo moderno que pode ser perigoso e muitas vezes nocivo e amoral.



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