Universidade Federal de Pernambuco
Depto. de Letras, Programa de Espanhol
Disciplina: História da Língua Espanhola
Centro de Artes e Comunicação
Professor: Dr. João Sedycias
Código da Disciplina: ______

 

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Elucubrações sobre a história da língua espanhola

Na Espanha, a língua oficial, o espanhol, se originou numa região na parte norte da Península Ibérica chamada Castela (“terra dos castelos”). Por isso, até os nossos dias esse idioma é também conhecido como “castelhano.” Ainda hoje há certos países, como a Argentina, que preferem o termo “castelhano” à apelação “espanhol” para referir-se à língua oficial da Espanha. Foram, principalmente, os reis de Castela que, através de muitas batalhas, conseguiram expulsar os mouros que dominaram a Península Ibérica por quase oito séculos.

Pouco a pouco, os nobres castelhanos foram alargando seus territórios, e quando terminou a reconquista – isto é, quando não havia mais domínios mouros em solo hispânico, os castelhanos já tinham conquistado o mais alto prestígio social, o que fez com que sua língua se impusesse a todos os demais habitantes da região que eventualmente viria a tornar-se o país que hoje conhecemos como Espanha. Assim como na Itália (com o italiano oficial) e na Alemanha (com o Hochdeutsch), existem na Espanha outras línguas faladas por muitas pessoas, com grande tradição cultural – o catalão, o basco, o galego – mas que não conquistaram a importância política, econômica, ou militar do castelhano. Na história da humanidade, a maioria das línguas nacionais se estabeleceram através “da espada” (i.e., conquistas militares) ou “da cesta” (i.e., influência econômica).

Da mesma maneira como o latim vulgar foi se transformando lentamente até resultar nas diversas línguas românicas hoje existentes, tais como o italiano, romeno, romance, francês, provençal, sardo, catalão, espanhol, português, também cada uma dessas línguas continua a se transformar. Daqui a alguns séculos, é possível que portugueses e brasileiros, por exemplo, não se entendam com a mesma facilidade que se entendem hoje, pois cada povo poderá estar falando uma língua diferente. Não foi exatamente o que aconteceu com o português e o espanhol, tão parecidos, tão próximos, mas ao mesmo tempo tão diferentes, que a compreensão mútua total já se tornou praticamente impossível, principalmente nos níveis mais coloquiais de ambas as línguas? A resposta a esta pergunta retórica, obviamente, é um enfático “sim.” Não obstante, para aqueles falantes do português (brasileiro, peninsular ou africano) que erroneamente insistem em acreditar que podem compreender espanhol pelo simples fato de serem lusoparlantes, sugiro que leiam o artigo do Professor João Sedycias, da Universidade Federal de Pernambuco, sobre esse assunto. O Professor Sedycias muito corretamente argumenta que:

“Jamais devemos pensar que, simplesmente porque sabemos português, podemos compreender espanhol sem maiores problemas. Se isso fosse verdade, as seguintes frases seriam perfeitamente compreensíveis para a grande maioria dos falantes de português:

    ¡Mira, qué monos son los cachorros del oso!
    ¿Vende Ud. tijeras para zurdo en esta tienda?
    La maja azafata me enseñó la butaca morada en el escaparate.
    Este zagal es el bizarro polizonte quien arrestó al presunto asesino.
    El maestro no tiene ropa y necesita un saco nuevo para ir a la fiesta.
    A mí no me apetecen los berros, pero extraño la lechuga y el perejil.
    ¡Qué planchazo! Llamaron al pobre chamaco de ‘faltrero,’ ‘caco’ y ‘efractor.’
    Me acordé que tengo que cortar la tela para hacer americanas para los mellizos.
    La chaparrita que lleva la chamarra garza vive en una chabola cerca del malecón.”

Origem e Evolução da Língua Espanhola

Antes de examinar o plano de uma cidade, a pessoa que se propõe visitar a mesma geralmente examina um mapa para conhecer sua situação exata. O mesmo se pode afirmar sobre o estudo de uma língua. Portanto, antes de entendermos o plano da história da língua espanhola, vamos examinar o lugar que esse idioma ocupa no mapa lingüístico da humanidade.

A lingüística nos ensina que uma língua é um sistema de signos de linguagem utilizada por um grupo social. Sabemos que existe um grupo social que utiliza a língua espanhola. A primeira idéia, e a mais óbvia, que nos vem à mente é que o espanhol é a língua falada na Espanha. Mas essa é apenas uma meia-verdade, pois também se fala o espanhol em muitos países hispano-americanos. Se fala espanhol também em outras regiões do mundo, tal como o sudeste dos Estados Unidos e em certas comunidades judias (sefarditas) de Israel e das costas do Mediterrâneo (Grécia e Turquia) e também em algumas comunidades das Filipinas.

Como assinala o Professor João Sedycias, o espanhol é umas das mais importantes línguas mundiais da atualidade. É a segunda língua nativa mais falada do mundo. Mais de 332 milhões de pessoas falam espanhol como primeira língua. Perde em número de falantes nativos apenas para o chinês (mandarim), cuja projeção internacional, entretanto, não pode ser comparada com uma língua “mundial” como o inglês, espanhol ou francês. Duas curiosidades: 1) há mais falantes de espanhol como língua nativa do que de inglês, que conta apenas com 322 milhões de falantes nativos; e 2) Há mais falantes de espanhol fora da Espanha do que nesse país. O maior número de falantes de espanhol se encontra atualmente nas Américas (do Norte, Central e do Sul) e não na Europa (Península Ibérica).

Na Espanha a maioria dos falantes têm como língua materna um idioma de projeção e estatura internacional, mas que, paradoxalmente, não é oficial de todo o país. Nesse país, ainda hoje, há cidadãos que crescem falando uma língua diferente do espanhol (por exemplo, o galego, catalão ou basco) e aprendem o espanhol apenas como segunda língua ou língua estrangeira. No que diz respeito ao número de falantes, o caso do espanhol é parecido ao caso do inglês e do português, cujos falantes fora da Inglaterra e de Portugal são mais numerosos do que os de dentro dos país. A língua espanhola originou-se do latim comum, falado na época pelos soldados, funcionários e colonos romanos assentados na Península Ibérica. É o idioma neo-latino mais difundido do mundo e atualmente é a língua oficial de 21 nações.

Dentro da língua espanhola existem muitas variações. Sabemos que um espanhol não fala da mesma maneira que um argentino, um mexicano, nem mesmo dentro da própria Espanha. Devido a essas variações existe o que os falantes nativos reconhecem como espanhol padrão e o não-padrão. Essa grande variação é devido à imigração espanhola para outros países e ao fato de os falantes do espanhol terem tido contatos com outras línguas como o inglês, o português e as línguas indígenas do Novo Mundo. Sabemos, também, que o espanhol não é idêntico em todos os lugares, por razões geográficas e sociais muito variadas. Notamos que as diferenças são maiores entre pessoas de níveis culturais diferentes e que essas diferenças ocorrem tanto para na Espanha como na América hispanófona.

Como é de se esperar, as variedades que a língua espanhola apresenta muda bastante de região para região. Essas variedades são chamadsas de dialetos. Na Espanha há quatro dialetos principais, a saber: o andaluz, o extremeño, o murciano e o canário. Essas diferenças afetam o vocabulário, a forma das palavras e a construção das frases.

A variedade hispano-americana da língua espanhola

A língua espanhola apresenta variantes que ocorrem tanto dentro do território espanhol como nos demais países que a adotam como língua oficial. Essas variantes se referem principalmente à pronúncia, ao vocabulário, à entonação e ao uso de algumas formas pronominais. No entanto, não acarretam alterações significativas ao idioma como um todo, o que nos permite falar de uma de uma língua espanhola comum a todos os países que a têm como idioma oficial. Não há dúvidas que no final do século XV, tanto na Espanha como em alguns países da América, a língua espanhola que se falava apresentava abundantes peculiaridades, mas que foram se normalizando e uniformizando com o passar do tempo.

Transformações do latim para o espanhol.

No ano 218 A.E.C. (antes da era comum) desembarcou em Anturias um exército romano que vinha a combater contra os cartaginenses, na guerra que a cidade de Roma sustinha contra os mesmos. Assim começou numa dominação que havia de durar mas de seis séculos.

Hispania foi declarada em seguida província romana, e seus conquistadores, dotados de grande sentido prático e talento organizador, foram colonizando a maior parte do território e explorando seus recursos humanos e natureza. Os hispanos, que se viram obrigados a incorporar-se ao modo de vida implantado pelos que agora tinham o poder, tiveram de aprender, entre outras muitas coisas, uma nova língua, o latim. Ainda que as velhas línguas prolongaram sua vida em alguns lugares durante muitos anos (e uma testemunha excepcional é como temos visto, o basco atual), foram pouco a pouco se curvando perante as vantagens que oferecia o uso de uma língua comum de intercâmbio, que era, ao mesmo tempo, indispensável para a relação com os dominadores.

Que língua falavam os romanos? Como a cidade de Roma está situada na região do Lácio, o Latium, que foi a primeira fronteira da expansão romana, sua língua era conhecida como latina.

O latim é uma das línguas itálicas, grupo de línguas irmãs faladas na península deste nome alguns séculos antes da era comum, variedades de uma língua anterior, o itálico, a qual só conhecemos através de suas filhas. O itálico, por sua vez, era um ramo do antigo tronco indo-europeu. Tudo o que sabemos da língua indo-européia é também através dos seus descendentes. Conhece-se sua existência, que teve lugar numa época muito remota, anterior em milênios à invenção da escrita – pelas numerosas semelhanças que se descobrem numa série de línguas aparentemente muito distintas e hoje geograficamente muitas isoladas entre si, semelhanças que só são explicáveis supondo uma origem comum. Assim, se sabe que ao lado do latim, com toda sua descendência e as outras línguas itálicas, são indo-europeus as línguas célticas, tanto as que se falaram na Hispania pré-romana como as que hoje existem na região francesa da Bretanha (bretão) e nas Ilhas Britânicas (irlandês, galês, escocês), o grego, o albanês, as línguas germânicas: o gótico, desaparecido há muito tempo, os modernos alemão, inglês, holandês; as línguas escandinavas e as línguas eslavas: russo, polaco, búlgaro e servo-croata (da Yugoslavia). Quase todas as línguas de Europa pertencem, pois, como o latim, à família indo-européia. Só ficam fora – aparte de algumas línguas já mortas, como o etrusco – o finlandês, o lapão, o estoniano, o húngaro e o basco. Se consideramos que, fora de Europa, também pertencem a esta família o persa e o grupo de línguas índias antigas e modernas, das quais, com certeza, deriva o cigano ou caló, resulta que uma porção muito importante da humanidade atual tem um mesmo antepassado lingüístico.

Dentro desta frondosa árvore genealógica, o latim teve um destino singular. Começou como a língua de uma comarca no centro da Península Itálica e chegou a ser, depois da expansão do poder militar romano, a língua do maior império conhecido na antigüidade. Entretanto, não se impôs em toda a extensão desse grande império, pois permaneceu ausente de quase toda a metade oriental do império (com a óbvia exceção da Romênia) desde a atual Yugoslavia até o Cáucaso.

Hoje o latim permanece vivo, sob distintas formas de evolução, em Portugal, na Espanha, na França na Bélgica, na Suíça, na Itália e na Rumênia, e também, fora da Europa, nos extensos territórios onde o levaram os espanhóis, os portugueses e os franceses.

Um fato religioso importante na evolução do latim como língua de projeção internacional é o estabelecimento dos pontífices cristãos na cidade de Roma. Esse fato histórico deu lugar a uma longa sobrevivência do idioma do Império romano, desde o século III até nossos dias, como língua universal da igreja católica. Entretanto, os decretos do Concílio do Vaticano II (1962-65), através dos quais se estabeleceu na liturgia o uso da língua viva de cada país no lugar do latim tradicional, representaram um duro golpe para a longa existência do latim como língua sagrada.

Por outra parte, a língua latina alcançou um fino polimento literário com a influência que a cultura grega teve sobre as classes letradas de Roma e serviu de veículo para uma importante produção científica. Como conseqüência disso, muito depois do desaparecimento do império romano, numa longa época da civilização moderna, do século XV ao XVIII, o grego e o latim sobreviveram como línguas de cultura, ciência e comércio. Como o latim, o grego nao se fez presente com igual intensidade em todas as partes do antigo império romano. Praticamente nao exerceu influência nas línguas da metade ocidental: as ilhas britânicas e as terras ao Norte dos Alpes nunca se latinizaram de maneira profunda. Nesses países os olhos da intelligentsia se voltavam para o grego e latim mais devido às obras maestras da poesia e do saber antigo, revitalizando assim o estudo desses idiomas e seu cultivo, que já vinha sendo feito desde a Idade Media, como língua universitária e científica.

Entretanto, é importante reconhecer que o latim como idioma da ciência e como língua eclesiástica é completamente artificial. O latim verdadeiro, aquele que sobreviveu de forma orgânica e ininterrupta, sendo usada por pessoas comuns nos contextos mais diversos, se encontra hoje apenas nas línguas neolatinas, isto é, nas "novas línguas latinas." Também se chamam línguas românicas ou romances. Estas novas formas do latim são o francês, o ocitano (também chamado de provençal), o italiano, o retorrománico ou romanche e o rumeno, além das línguas que se falam atualmente na Península Ibérica (com a exceção do basco).

Artigo obtido através do site da Universidade Nilton Lins, de Manaus, Amazonas, Brasil, corrigido, atualizado (abril de 2003) e substancialmente modificado pelo Prof. Dr. João Sedycias, da Universidade Federal de Pernambuco-UFPE.

 



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