Internet: novos e velhos negócios

 

Fernando Heleno da Silva

 

(Este texto foi publicado pelo jornal Semanário Econômico na sua edição de 01 de Outubro de 1999)

A Internet está a assumir muito rapidamente uma importância inequívoca no centro da vida empresarial. Encarada, até há pouco, como um media complementar de marketing e um novo meio expedito de comunicação, já ultrapassou esse estágio, tornando-se uma ferramenta universal e obrigatória da gestão a todos os níveis.

As suas características multimedia e multiserviço associadas à sua versatilidade e baixo custo tornam-na uma arma potente e eficaz nas mãos adequadas, permitindo, ou melhor, forçando a reformulação do modelo do negócio.

Os últimos cinco anos de experiência já mostraram muitas das vantagens da Internet, bem como, os cuidados que exige a sua utilização.

Para fixar o cenário, recordemos as principais vantagens destas novas tecnologias, convergentes na Internet:

O volume do comércio electrónico mundial mais do que duplica cada ano.

Ultrapassará este ano, entre empresas, 300 biliões de dólares e entre empresas e o consumidor, 10 biliões de dólares.

Há algum consenso de que a internacionalização e a especialização são imperativas. As empresas que queiram crescer, ou simplesmente  sobreviver, terão de  penetrar rapidamente e bem  no mercado internacional, onde os potenciais parceiros, fornecedores e clientes, já  são utilizadores intensivos do comércio electrónico, o qual está a substituir as formas tradicionais de relacionamento empresarial.

Há anos, o EDI (Electronic Data Interchange), usado entre as  grandes empresas, era um luxo inacessível à maioria das nossas. Agora há serviços de muito baixo custo que realizam aquelas funções do EDI, isto é, garantir o comércio electrónico autenticado e juridicamente válido. Há, ainda, outras soluções  ainda  mais económicas, tais como, a cifra e a assinatura digital que podem ser suficientes em muitos casos.

A Internet vai ocupar lugar determinante nas Operações, como suporte universal dos Sistemas de Informação, oferecendo um potencial  mais elevado e mais rápido de simplificação das mais variadas funções e processos: concepção do produto, vendas, finanças, logística, distribuição, interacção com o cliente, etc.

Dependendo do produto ou serviço, será igualmente determinante no Marketing, na publicidade, na obtenção de feedback do mercado, na vigilância dos concorrentes, na pesquisa de informação e na procura de produtos e serviços.

A Internet, por um lado, ao ser usada pela concorrência é uma forte ameaça a exigir resposta inadiável, e por outro, ao ser usada pela empresa abre um oceano de possibilidades, como facilitadora da criação de vantagens competitivas.

Passou a ter um lugar central na Estratégia, podendo ser uma das alavancas ao serviço da empresa, abrindo novas formas de actuação, de acesso ao mercado, de segmentação, criando vantagens competitivas sustentáveis, se se conseguir a rápida adesão dos clientes e tiverem sido criadas barreiras à imitação.

Na perspectiva operacional a Internet permite ganhos consideráveis, quer na melhoria radical do nível de satisfação do cliente, quer na  redução drástica dos custos, por exemplo, em Gastos Gerais, Vendas, Capital Circulante e Fundo de Maneio.

Não mais poderá a estratégia de uma empresa ignorar a Internet, enquanto elemento fundamental daquela.

Praticamente, qualquer negócio novo se pode iniciar em torno da Internet.

Provavelmente, haverá poucos negócios significativos que subsistam sem a Internet.

Possivelmente com apoios oficiais, a comunidade empresarial nacional deve-se preparar neste domínio a fim de enfrentar a concorrência global. Cada vez mais, as grandes empresas exigem aos seus parceiros o uso de sistemas de comércio electrónico.

No entanto, a Internet deve ser introduzida pelas empresas de um modo muito profissional, pois entre outras razões, a percepção pelo utilizador não é aquela que   habitualmente temos como evidente.

O seu uso eficaz exige alguma preparação, nomeadamente, reorganização e formação de parte do pessoal. A qualidade da interacção com o cliente é crucial, pois quem usa a Internet tolera menos os erros e os atrasos, já que tem muitas opções à sua escolha.

Tal como é de há muito reconhecido em relação às actividades tradicionais da empresa, também a presença na Internet tem de ser orientada para o cliente.

Trata-se de uma questão de pessoas e não de tecnologia. É possivelmente um dos mais espinhosos problemas de comunicação.

Um sistema de comunicação interno e externo baseado num ”site” bem arquitectado e implementado, que seja útil para o cliente e seja fácil de utilizar, facilitando a troca de  informação bilateral é a base do sucesso.

Para conquistar novos clientes, é fundamental que o “site” seja visitado o que se consegue com algum marketing convencional e com uma

estratégia de criação de notoriedade e de reconhecimento pelas  máquinas de busca existentes na Internet. De facto, estudos recentes mostram que as máquinas de busca apenas encontram 10% do conteúdo disponível na Internet.

A Internet é um instrumento com raio de acção mundial. O seu atraso relativo no mercado doméstico, pode criar um falso sentimento de tranquilidade. Apesar de para alguns produtos e serviços, a Internet já atingir os segmentos mais rentáveis e de maior potencial.

Deve criar-se um sentido de  urgência em adoptar a Internet como instrumento global de gestão. De facto, não basta ter um página na Internet para resolver a questão.

Comparado com os desafios da Internet, o problema do “bug” do ano 2000 é apenas uma curva mais apertada.



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