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Maria tereza Gomes

 


Usar Internet não coloca você na nova economia digital. O segredo para sair dos átomos em direção aos bits é pensar digitalmente. É aí que mora a dificuldade!


Aconteceu assim: um executivo de 36 anos estava entre os cinco finalistas para uma vaga de vice-presidente de uma montadora de automóveis. Terminada a pré-seleção, o headhunter encarregado de preencher o posto convocou os cinco candidatos para um teste. Cada um deveria criar um endereço de e-mail (Yahoo, Hotmail ou outro) e enviar uma mensagem. Pane! O executivo em questão não sabia entrar na Internet, nunca havia usado um e-mail e, no fundo, não considerava que comunicação pela Web tivesse algo a ver com suas capacidades profissionais. Atenção: estamos falando de um engenheiro formado pela Escola Politécnica da USP, que fala cinco idiomas e, de novo, estava disputando um cargo de vice-presidente numa das maiores empresas do país. No dia seguinte ao teste, ciente de seu atraso tecnológico, o executivo investiu 3 500 reais no mais moderno dos computadores existentes no mercado. Ele tem uma boa dose de certeza de que perdeu a vaga de sua vida ali, naquele teste.

Outros fatores não perceptíveis a VOCÊ s.a. podem ter influenciado na desclassificação do nosso executivo à vaga. Uma coisa, porém, é certa: ele perdeu pontos preciosos no embate com o computador - e no faroeste tecnológico atual essa falta de intimidade pode ser fatal. No mercado de trabalho de hoje e do futuro há algo absolutamente seguro: ser digital é fundamental, e será cada vez mais. Essa pode estar sendo, simplesmente, a diferença entre mover-se para a frente na carreira ou ficar confinado aos patamares inferiores do mercado de trabalho. Mais importante ainda, a "nova economia" que está aí exige ir muito além do básico na relação do profissional com o universo dos chips. Na verdade, tornar-se um ser digital não é apenas passar no teste acima, saber fazer um download de programas, operar uma planilha Excel. Sim, é tudo isso. Mas é, também, muito mais que isso. Na verdade, o fundamental mesmo é aprender a pensar digitalmente. E o que é pensar digitalmente?

1 Pensar digitalmente é usar a tecnologia digital como vantagem competitiva para você e para a sua empresa. "A concorrência virá de onde você menos espera. É preciso se preparar", diz o brasileiro Jean-Paul Jacob, gerente do Centro IBM de pesquisas de Almaden, na Califórnia. Jacob, formado pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, ITA, em São José dos Campos, é um dos mais requisitados futurólogos da IBM. Entre outras coisas, na década de 70 Jacob previu - e ninguém acreditou - o fim do disco de vinil.

2 Pensar digitalmente é saber usar as informações coletadas com seus clientes - e quase nunca usadas - para criar novos negócios. "A minha geração aprendeu a acumular dados no computador", diz Max Gehringer, 49 anos, presidente da Pullman, empresa do grupo Santista Alimentos e colunista da revista Exame. "Temos condições de saber o que cada cliente comprou em qualquer cidade do Brasil. Mas não sabemos o que fazer com essa informação. A geração que está entrando no mercado de trabalho vai saber."

3 Pensar digitalmente é entender que a Internet muda a economia e reescreve as leis da oferta e da procura. Segundo Jacob, a redução de preços é um dos fenômenos econômicos mais visíveis provocados pela Internet. Um exemplo: a empresa virtual Priceline.com, dos Estados Unidos, permite que você faça ofertas por um lugar nos aviões de companhias aéreas. Qualquer pessoa pode ir ao site da Priceline dizer quando quer viajar e quanto quer pagar por um lugar no vôo. A companhia aérea pode aceitar sua oferta ou não - mas, como lugar no avião é um bem perecível, vender um assento antecipadamente num vôo que provavelmente terá assentos vazios tem sido um bom negócio para as empresas. E o consumidor está pagando cada vez menos por sua passagem. É uma inversão completa de regras: a empresa abre mão de sua capacidade de fazer o preço. Você está preparado para algo assim no seu negócio?

4 Pensar digitalmente é esquecer que preço e qualidade são vantagens competitivas. Eram, no passado. Hoje, os dois elementos são apenas básicos - commodities, na verdade, que um número cada vez maior de empresas e profissionais está em condições de oferecer. O diferencial, mesmo, é o atendimento ao consumidor. E a Internet tem algo de que o ser humano sempre necessitou e as empresas sempre subestimaram: permite que cada cliente seja tratado como centro do universo. É isso o que faz a Amazon.com, a maior livraria virtual do mundo. As pessoas que fazem compra em seu site são tratadas como se fossem seu único cliente. Os e-mails são personalizados, as ofertas são personalizadas, os serviços são personalizados. É a "massificação com personalização", como define Jacob.

5 Pensar digitalmente é compreender que executivos como Firmin Antonio, presidente do Grupo Accor, podem ditar seus textos para a secretária digitar. Sim, há profissionais de primeira linha que não chegam perto de um computador. Mas Firmin Antonio já é presidente de uma grande empresa e tem 53 anos. Se você quer chegar a um posto similar ao dele um dia, não pode ser analógico. Ele pode. Você não.

A lista poderia seguir adiante, mas convém não assustá-lo em demasia - e só estamos no começo desta reportagem. O fato é que a era digital está provocando uma revolução na forma como as empresas compram, vendem, se comunicam e se encontram. Não cometa o erro de pensar que alguém, ou alguma carreira, possa estar imune a essa revolução - não na vida real, e não entre os mortais comuns, gente que não é dono de banco ou presidente de empresa, artista de fama ou atleta internacional. Isso é verdade mesmo que a função - executivo de vendas, gerente de produto, operador financeiro - não envolva direta ou especificamente uma especialização digital, como é o caso de quem trabalha com sistemas. Você precisa entender que a tecnologia digital significa acesso à informação. E acesso à informação leva as pessoas (seus superiores, subordinados, colegas, fornecedores e clientes) a entender melhor as forças que regem o ambiente delas. Você não será mais valorizado pela informação que retém sozinho, como no passado; ela está cada vez mais disponível, e para um número cada vez maior de pessoas. Pensar digitalmente é usufruir em conjunto as informações que fluem da rede eletrônica e transformá-las num valor - um produto ou serviço. Tem mais: quando você dá acesso à informação, retira barreiras de hierarquia, cultura, nacionalidade. A comunicação flui em todas as direções.

"O fluxo de informações está mudando as formas autoritárias de organização no ambiente de trabalho", diz o cientista político americano Francis Fukuyama, autor do memorável O Fim da História. Num recente artigo no Financial Times, de Londres, Fukuyama sustenta que os progressos da tecnologia da informação tendem a criar espaços importantes, dentro das empresas, para os profissionais com mentalidade digital avançada. "A transformação mais importante dos últimos anos é a ascensão das organizações em rede, em detrimento das burocracias centralizadas, hierárquicas", escreve ele. "A rede substitui as regras formais por regras informais." Na sua opinião, o mundo dos negócios está se tornando complexo demais, do ponto de vista tecnológico, para que os quadros superiores das empresas continuem monopolizando o poder e as decisões - eles, simplesmente, não sabem o suficiente para decidir com acerto. "As companhias têm de transmitir poder a especialistas e a decisores que estejam mais próximos das fontes de informação tecnológica", diz Fukuyama.

Para explicar quem são esses profissionais com "mentalidade digital avançada" de que fala Fukuyama, a revista americana Fast Company publicou recentemente um artigo de capa sobre o tema. A revista conclui que ser digital hoje é, principalmente, mudar o tipo de pergunta que você deve fazer em relação ao seu negócio, ao projeto que está tocando e à sua carreira. Segundo a revista, até os anos 80 a pergunta era: "Em que tipo de negócio você atua?" No começo dos anos 90, a questão mudou para "Qual é o modelo do seu negócio?" Hoje, nem mesmo essa indagação vale mais. A pergunta básica da próxima grande revolução nos negócios, segundo a Fast Company, é: "Quão digital é a sua empresa?"

A questão foi levantada com pertinência por Nicholas Negroponte, autor do livro Being Digital ("Ser digital"), e fundador de um laboratório do Massachusetts Institute of Technology que estuda a comunicação, o lazer e a educação do futuro. Negroponte, numa definição hoje clássica, diz que a distinção fundamental na nova economia é entre átomos e bits. Ele sugere que cada pessoa comece a avaliar quais trabalhos realiza que envolvem átomos - papel, caneta, pessoas ou qualquer coisa tangível, formada por nêutrons e elétrons - e quais trabalhos envolvem bits - e-mail, e-comércio, e-comunicação... Com essa avaliação, sugere Negroponte, você terá uma idéia do quanto está distante ou próximo da era digital. Se o seu trabalho e as suas qualificações profissionais se restringem ao universo dos átomos, você não está no futuro.

Indagar o quão digital é sua empresa ou seu trabalho leva, naturalmente, a indagar o quão digital é você. Como lembra a reportagem da Fast Company, fazer a pergunta "O quão digital é você?" não apenas produz novas respostas. Ela, principalmente, reinventa as regras do jogo. Se você é um profissional que está disposto a continuar empregado por um longo tempo, precisa começar a se perguntar como a tecnologia digital pode garantir o futuro da sua empresa. Mantenha essa pergunta em sua agenda diária, não importa o nível hierárquico em que esteja. Como foi dito acima, as informações não têm mais dono. Estão disponíveis para qualquer um - inclusive para você. Se você trabalha na área de finanças, é hora de usar a tecnologia digital para garantir o dinheiro que vai gerar o crescimento da companhia. Se você trabalha em recursos humanos, precisa atrair e reter os talentos digitais. Se você está na área comercial, precisa descobrir como ter produtos que atendam os anseios de um novo consumidor, o da era digital.

Pensar digitalmente significa cultivar uma constante postura de renovação. Você vai ver cada vez mais novidades e precisa estar preparado para saber como cada uma delas vai impactar seu futuro. Se o vento mudar - e ele vai mudar -, você precisa saber para onde direcionar as velas do barco. "Eu tenho consciência que minha empresa pode estar destruída amanhã por causa de uma nova tecnologia", diz Leonardo Reis, sócio da Zumble, empresa de consultoria em aprendizagem organizacional com sede em São Paulo. Um dos trabalhos da Zumble é ajudar os clientes a estabelecer a visão estratégica e a delinear cenários para o futuro. "O grande impacto da Internet ainda não foi sentido", diz Reis. Segundo ele, até agora o que a Internet gerou foi o megaacesso à informação. Mas o fundamental mesmo será a mudança radical nos negócios. A era digital afeta profissionais de quase todas as áreas de negócios e, por tabela, afeta o seu futuro e a sua carreira.

(trecho de reportagem publicada na revista Você s.a. de junho/1999)



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