PROPOSTA DE CURSO DE INGLÊS INSTRUMENTAL

APLICADO A CURSOS DE GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA

Glória Sônia Quélhas Nunes e
Tereza Fachada Levy Cardoso
CEFET-Rio de Janeiro

RESUMO

Este trabalho pretende demonstrar que a abordagem instrumental no ensino de língua inglesa é perfeitamente adequada à implantação de cursos de inglês, com ênfase em leitura, aplicados à área de engenharia, em particular, devido à posição estratégica em que os profissionais da área em tela se encontram, face à internacionalização de mercado de trabalho através das redes globais e à mudança nos paradigmas de informação, comunicação e aprendizagem. Como resposta a essa adequação, apresenta-se um modelo para a implantação real de um curso de Inglês Instrumental Aplicado à Engenharia, fundamentado na discussão das ferramentas pedagógicas disponíveis para tal ensino.

Palavras-chave: engenharia; inglês instrumental; tecnologia.

Tema: metodologias de ensino/aprendizagem

1. INTRODUÇÃO

É indiscutível a importância do conhecimento da língua inglesa nos cursos de engenharia. Considerando a competitividade do mercado e a necessidade de atualização constante de informações científicas e tecnológicas e as dificuldades das traduções de artigos, livros e outras publicações em tempo hábil, ou seja, com a mesma velocidade em que são escritos, as universidades, então, resolveram mudar o enfoque do ensino de inglês como língua estrangeira, passando do estudo sistemático de vocabulário e regras gramaticais para um estudo mais abrangente de textos autênticos retirados das próprias fontes de informação. Denominado de ESP - English for Specific Purposes - a palavra purpose (finalidade) parece ser o termo crucial, indicando que esse tipo de ensino se encontra nos objetivos que procuramos alcançar. (Celani ,1988).

Historicamente, o enfoque dado à leitura dentro do processo de ensino-aprendizagem de língua estrangeira tem variado de acordo com a corrente metodológica em voga. Até o final da década de 40, esse processo estava centrado na leitura e tinha por base o método do ensino da gramática e da tradução. Com a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu-se o método áudio-lingual baseado nas teorias behavioristas em voga na época, com o propósito de ensinar línguas européias aos soldados americanos que partiam para o campo de batalha.

Com o desenvolvimento desse método, a leitura foi praticamente ignorada, tendo sido, inclusive, considerada prejudicial à aquisição de uma boa pronúncia, quando apresentada ao aprendiz antes que ele tivesse adquirido fluência oral. O objetivo da leitura era o domínio de habilidades e fatos isolados através da decodificação mecânica de palavras e da memorização pela repetição. O aprendiz possuía um papel passivo de um instrumento receptor de conhecimentos vindo de fontes externas.

A partir do desenvolvimento das ciências cognitivas, essa idéia foi aos poucos sendo reavaliada. Os objetivos da leitura passam a ser a construção de significados e o aprendizado auto- regulado. O processo de leitura é concebido como uma interação entre o leitor, o texto, e o contexto: o leitor passa a ser visto como um sujeito ativo, um bom usuário de estratégias e um aprendiz cognitivo.

Baseados nesses pressupostos, os pesquisadores de leitura acreditam que o significado não está contido nas palavras, na página. O leitor constrói significados, fazendo inferências e interpretações. A informação é armazenada na memória de longo-prazo, em estruturas de conhecimento organizadas. A essência da aprendizagem constitui em ligar novas informações ao conhecimento prévio sobre o tópico, a estrutura ou o gênero textual e as estratégias de aprendizagem. A construção de significados depende, em parte, da metacognição, da habilidade do leitor de refletir e controlar o processo de aprendizagem (planejar, monitorar a compreensão e revisar os usos das estratégias e da compreensão); e das suas crenças sobre desempenho, esforço e responsabilidade. A leitura vem, justificadamente, readquirindo posição de destaque no ensino de línguas: ela é a fonte de diversos tipos de informação sobre a língua estrangeira, o povo que fala e sua cultura, além de ser o contexto ideal para a apreensão de vocabulário e sintaxe em contextos significativos, permitindo ao aprendiz mais tempo para a resolução de problemas e a assimilação das novas informações apresentadas. A leitura, portanto, é fundamental ao aperfeiçoamento das demais habilidades e à expansão do conhecimento.

Assim, o número de estudos sobre a leitura e os seus múltiplos aspectos cresceu muito nas últimas décadas, principalmente após os desenvolvimentos da análise do discurso. Nessa linha destacam-se os estudos centrados na aquisição e no processamento da leitura, na teoria de esquemas e nas estratégias de leitura para o uso instrumental da língua.

No Brasil, o ensino instrumental foi adotado quando o mundo acadêmico se tornou incapaz de acompanhar o debate científico no resto do mundo. No final da década de 70, a professora Antonieta Alba Celani, da PUC de São Paulo, coordenou uma revolução didática que envolveu dezenas de universidades e escolas técnicas, em que milhares de professores e alunos passaram a ensinar e aprender inglês com objetivos modestíssimos mas urgentíssimos: equipar-se para encarar as situações de sua vida profissional, como a leitura de textos e o acompanhamento de um debate.

Esse estudo envolve estratégias de leitura, tais como: fazer previsões do conteúdo do texto a partir da análise de títulos, gráficos e ilustrações e do acionamento de conhecimento de mundo e conhecimento prévio do assunto pelo leitor, concentrar a atenção nas palavras cognatas e deduzir o significado de palavras desconhecidas a partir do contexto, procurar informações específicas ou fazer uma leitura rápida para verificar a idéia central do texto sem se preocupar com o conhecimento isolado de cada palavra ou com vocábulos desconhecidos, etc.

Desta forma, o projeto ora apresentado, de desenvolvimento de um curso de leitura, em inglês, para alunos dos cursos de graduação de engenharia, justifica-se amplamente face à crescente demanda de cursos de inglês para aplicação no contexto acadêmico. Atualmente sabemos ser primordial estar preparado para qualquer situação onde o conhecimento seja exigido. O Inglês é a chave que abre portas: noticiários, pesquisas, trabalho, ciências, artes, diversões, viagens. Sem falar nos negócios. Portanto, o curso foi elaborado com o objetivo de ensinar apenas a habilidade de leitura, a fim de possibilitar que os alunos possam compreender os textos em inglês na sua área de atuação.

A vantagem deste curso, é o fato de ser montado a partir do levantamento de situações em que o conhecimento específico do Inglês permita ao aluno dos cursos de graduação de engenharia desempenhar melhor sua função, qual seja, a de ler artigos, manuais, relatórios, papers, em inglês, aplicando as estratégias aprendidas, para facilitar a leitura e a compreensão sem que seja necessária a tradução na íntegra.

Diante do exposto, este trabalho procura mostrar a viabilidade da implantação do curso de Inglês Instrumental aplicado à área de Engenharia, voltado para a habilidade de leitura, como também apresenta a estrutura do mesmo, dentro da qual apresentamos o material de uma aula, exemplificando nossa proposta.

2. ESTRUTURA DO CURSO

O curso de Inglês Instrumental para alunos dos cursos de graduação em engenharia, foi elaborado para atingir as necessidades do aluno com simplicidade e rapidez, utilizando uma linguagem clara e uma metodologia de fácil assimilação.

O curso constitui-se de um conjunto de aulas que contêm textos para leitura, ao qual se aplicam estratégias tais como: skimming, scanning, antecipação, sensibilização, palavras cognatas, palavras repetidas, conhecimento prévio, tipos de texto, dicas tipográficas, informação não-verbal, abordagem de vocabulário (inferência contextual, classes gramaticais, afixos), estrutura nominal, estrutura frasal, estrutura textual (coesão, referência pronominal, marcadores do discurso), técnicas de resumo. Além disso as aulas também apresentam um material impresso - uma apostila.

A gramática não é o corpo do curso, é um facilitador da compreensão do texto, ou seja, a gramática é discursiva: serve com um meio e não um fim, ajudando na compreensão do mesmo.

As atividades serão flexíveis, variadas e significativas, com os seguintes tipos de exercícios: perguntas diretas em português, perguntas diretas em inglês, múltipla escolha, falso e verdadeiro, correlacionar colunas, completar lacunas, diagramas, etc. Escolhemos um curso de nível intermediário, para o nosso exemplo, que pressupõe que o aluno já tenha alguma familiaridade com a língua inglesa. Para que o material do curso possa auxiliar o processo de aquisição de língua em inglês é necessário que o aluno esteja lendo textos em inglês fora das atividades propostas, para por em prática os conhecimentos adquiridos.

2.1. OBJETIVOS

Desenvolver um curso de inglês instrumental para engenheiros, com foco em aprendizagem de leitura.

Introduzir uma nova abordagem no ensino da graduação dos cursos de engenharia para possibilitar a flexibilização metodológica no ensino da língua estrangeira. A proposta deste curso é oferecer uma interação eficiente e criativa entre os participantes: alunos e professores.

Ampliar o acesso de alunos de graduação de cursos de engenharia a textos de sua área de atuação, em inglês.

Capacitar os alunos a ler textos em inglês de sua área de atuação, qual seja a engenharia.

2.2. METODOLOGIA

Este projeto está alicerçado no aspecto metodológico voltado para o desenvolvimento da habilidade do aluno de extrair a mensagem que o texto contém. Diferente das aulas de línguas em geral, a aula de leitura não tenta colocar algo na mente do aluno, mas, ao invés disso, tenta fazer com que ele extraia a informação por si mesmo.

Assim, a abordagem instrumental demanda um material pedagógico que oriente o aluno a aprender a aprender. Desse modo, o aluno precisa, para assumir o controle sobre o seu processo de aprendizagem, aprender a superar as dificuldades que irá enfrentar ao ler um texto em língua estrangeira, desenvolvendo estratégias que lhe permitam resolver os problemas de compreensão, tanto no nível do conteúdo do texto como no nível lingüístico.

Tal tarefa envolve fundamentalmente dois tipos de estratégias: estratégias globais de compreensão e estratégias de aquisição de língua. Visando desenvolver essas estratégias, o material pedagógico elaborado expõe o aluno a tarefas que o levam a refletir sobre o sentido do texto e, também, a focalizar e a analisar a língua inglesa em situações concretas de uso.

Desta forma, os objetivos fundamentais da leitura serão atingidos por um programa que desenvolva em cada aluno as estratégias supra citadas, possibilite muitas oportunidades de experiências ricas e variadas através da leitura, desenvolva um interesse duradouro na leitura e encoraje o uso habilidoso e criativo da leitura para atingir necessidades e interesses específicos, conseqüentemente, levando à auto- confiança e à auto-suficiência, ou seja, o aluno confia em si próprio em virtude do desenvolvimento de sua auto-estima pelo professor.

O professor deve sempre questionar o processo de leitura junto ao aluno. A leitura deve ser sempre crítica, pois nem tudo o que está escrito é verdadeiro. A leitura deve ajudar a formar indivíduos críticos que têm postura, opinião. Assim, o aluno deve ler para selecionar.

2.3. TÉCNICAS DE LEITURA

O leitor competente não lê de forma linear, mas em busca do significado global daquilo que lê. Assim, de certa forma, ele cria o significado com base no seu conhecimento da língua e do mundo. Ao ler um texto, ele pode ser capaz de apreender o significado do texto como um todo sem, necessariamente, dominar todas as suas palavras e estruturas, utilizando para tanto certas técnicas de leitura;

Compreensão detalhada (vocabulário, informação específica, detalhes importantes) O leitor estabelece a sua técnica de leitura de acordo com seus interesses e/ou necessidades. Para cada técnica de leitura existem estratégias específicas para se chegar à compreensão. Aconselha-se ao aluno a começar sempre por aquilo que já conhece, procurando o conhecido e, a partir daí, estabelecer relações.

2.4. ESTRATÉGIAS DE LEITURA

Destacamos as seguintes estratégias de leitura, a serem enfocadas: sensibilização, palavras cognatas, palavras repetidas, conhecimento prévio, tipos de texto, antecipação, dicas tipográficas, informação não-verbal, informação verbal não-linear, abordagem de vocabulário (inferência contextual, estudo de vocabulário, classes gramaticais, afixos), estrutura nominal, estrutura frasal, estrutura textual (coesão, referência pronominal, marcadores do discurso), técnicas de resumo.

2.5. TIPOS DE EXERCÍCIOS

As atividades serão flexíveis, variadas e significativas. O professor irá fazer uso do produto e não somente checar o produto, pois a pergunta que checa a compreensão não ensina. As questões devem guiar o entendimento.

Destacamos os seguintes tipos de exercícios: perguntas diretas em português, perguntas diretas em inglês, múltipla escolha, falso e verdadeiro, correlacionar colunas, completar lacunas, diagramas, quadros sinópticos, comparar informações, atividades lúdicas.

A aprendizagem do aluno é o objetivo do curso, ou seja, ajudar o aluno a compreender e ter compreensão. Isto é conseguido através de tarefas que ajudarão os alunos a entenderem o texto e que também possibilitem que ele avalie o quanto do texto foi entendido e até onde foi a compreensão. Tudo isto valoriza a auto-estima do aluno, e o torna um aluno independente (independent learner), pois ele adquire a capacidade de assumir riscos.

3. CONCLUSÃO

O trabalho tentou mostrar como a abordagem instrumental no ensino de língua inglesa pode contribuir para ampliar as oportunidades de desenvolvimento para alunos de engenharia, através do contato com as últimas novidades da área tecnológica, disponibilizadas em textos autênticos em língua inglesa.

O inglês também é uma poderosa ferramenta para o fomento da integração curricular, uma vez que os vários textos a serem trabalhados em sala de aula tratam de tópicos pertencentes a outras disciplinas, criando, assim, um elo entre as mesmas.

A abordagem instrumental tem sido utilizada largamente e com êxito em várias Escolas Técnicas, Centros Federais de Educação Tecnológica - CEFETs e Universidades brasileiras. O "specific purpose" (fim específico) mais comum dentre as universidades participantes é a leitura de literatura específica em inglês. Conseqüentemente há um consenso dentro do projeto em concentrar no ensino de estratégias de leitura, com o uso de material autêntico e o uso da língua materna no discurso de sala de aula.

No CEFET-RJ, a demanda é também crescente por cursos de Inglês Instrumental, na graduação e dos cursos de Engenharia e de Administração Industrial. A disciplina Inglês Instrumental vem sendo oferecida, na modalidade presencial, no Ensino Médio e, no Ensino Superior, ela é oferecida, em caráter optativo, em dois períodos. Por seu caráter participativo e interativo, o projeto constitui uma primeira etapa necessária para expandir o acesso de mais alunos à aprendizagem de leitura de textos em inglês.

Em relação à ampliação do público-alvo do curso, observa-se que a proposta de criação da disciplina em todos os cursos de graduação em engenharia, está dentro do espírito das discussões sobre flexibilização curricular, Realmente, a proposta prevê uma mudança de ênfase de ensino para aprendizagem, na medida em que os alunos se tornam mais responsáveis pelo processo, tendo uma maior participação na aprendizagem.

Assim, o curso de inglês instrumental para engenheiros, apresenta-se como uma alternativa para a otimização do trabalho de professores e alunos. Esta proposta também atende aos desafios propostos pelas mudanças que vêm ocorrendo ultimamente no paradigma educacional, no qual a engenharia deve ser capaz de atuar como articuladora entre os mundos da ciência e tecnologia e do mercado competitivo.

4. REFERÊNCIAS

CELANI, M.A.A.et al. The Brazilian ESP Project: an Evaluation. São Paulo:EDUC, 1988

GRELLET, Françoise. Developing Reading Skills. Cambridge University Press, 1995

HUTCHINSON, Tom & WATERS, Alan. English for Specific Purposes. Cambridge: Cambridge University Press, 1996

MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Oficina de Lingüística Aplicada. Campinas (SP): Mercado de Letras, 1996.

NUTTAL, Christine. Teaching Reading Skills in a Foreign Language. Heinemann Educational Books Ltd., 1982. . Acesso em 25/06/2002 m. Acesso em 22/07/2002



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