

ENSINO DE LEITURA EM LÍNGUA INGLESA E ANÁLISE DO DISCURSO: PONDERAÇÕES E PROPOSTAS
Sérgio Augusto Freire de Souza
Universidade do Amazonas
ABSTRACT: This paper aims to discuss some fundamental aspects upon which the teaching of reading in English for specific purpose is based. It focuses on how the teaching of reading in English is related to both textual and ideological discourse analyses, trying to show that the former is not more than a theoretical clone of the latter.
Key-words: ESP, reading, discourse analysis, ideology
RESUMO: Este trabalho busca discutir alguns aspectos fundamentais em que o ensino de Inglês para fins específicos está embasado. Focaliza como o ensino de leitura em Língua Inglesa relaciona-se tanto com a Análise do Discurso textual quanto com a Análise do Discurso francesa, buscando demonstrar o fato de ser a primeira clone teórico dessa última.
Palavras-chave: ESP, leitura, análise do discurso, ideologia
1. Introdução
Este artigo objetiva tecer algumas considerações a respeito do ensino de leitura em Língua Inglesa e sua relação com a Análise do Discurso.
Iniciamos comentando alguns aspectos da leitura em língua estrangeira, mais especificamente em língua inglesa, ou ESP - English for Specific Purposes, alguns de seus pressupostos e a forma como tem sido trabalhada, de uma forma geral. Abordamos em seguida a teoria de Análise Crítica do Discurso sob um ângulo crítico. Transitamos para terreno da Análise do Discurso francesa, iniciada por Michel Pêcheux, confrontando-a com as outras Análises do Discurso. Por fim, propomos alguns posicionamentos teórico-metodológicos para se trabalhar a leitura em Língua Inglesa.
Todas as nossas considerações têm sempre o ensino da leitura em língua inglesa como ponto de referência. Acreditamos, no entanto, que muitas das observações aqui levantadas sejam de igual utilidade para a leitura em língua materna.
2. ESP ou leitura?
Iniciaremos abordando o ESP. Para começo de argumentação, se faz necessário um ajuste de terminologia. ESP - English for specific purposes, como o próprio nome deixa claro, é uma abordagem do ensino de língua inglesa cujo foco é segmentado. O léxico, a sintaxe, a morfologia, as funções comunicativas (cf. Wilkins, 1976) recorrentes em determinado campo (medicina, direito, estatística, etc.) recebem o foco de atenção como conteúdo a ser trabalhado.
No Brasil, tem acontecido de o ESP ser considerado como sinônimo de leitura instrumental. Na verdade, ESP é leitura para fins específicos, mas é também escrita, conversação, e prática oral para fins específicos. Ao utilizar ESP por leitura instrumental, distorce-se o que se pretende por ESP, limitando-o à leitura somente, desprezando as demais habilidades envolvidas. Por essa razão, abandonaremos o termo ESP e utilizaremos doravante leitura para fins específicos, uma vez que é dessa habilidade específica que estaremos falando.
3. Como se trabalha a leitura em língua estrangeira hoje?
São dois os elementos mais trabalhados no ensino de leitura em língua inglesa: Metacognição e Análise do Discurso.
Metacognição
A abordagem sistemática da metacognição foi introduzida nos cursos de leitura para fins específicos não há muito tempo. Advinda dos estudos em psicolingüística, a metacognição tem estado presente geralmente nas primeiras unidades de curso de leitura em língua estrangeira.
O fato de o aluno saber ou estar ciente de como ocorre o processo de significação em sua mente, no entanto, não encontra unanimidade na literatura no que diz respeito a ser um elemento facilitador no processo. Até que ponto conhecer a Teoria dos Fatores Subjacentes (Holmes, 1954) ou saber que a leitura é um jogo de adivinhação psicolingüístico (Goodman, 1967), ou ainda dominar a Teoria dos Esquemas (Rumelhart & Ortony, 1977) pode ajudar o aluno a ler efetivamente? É uma questão a ser discutida.
A nosso ver, o professor, pelo papel que ocupa no processo, tem a obrigação de conhecer tais teorias e, se convencido por elas for, deve introduzi-las, de um modo assistemático, no processo ensino-aprendizagem, ao nível de abordagem. Por que colocar no material do aluno uma introdução sob o título de organizadores avançados quando um título como introdução seria suficiente?
De todo modo, uma vez que a questão é discutível, a despeito de nosso posicionamento pessoal, trabalhos como o de Angela Kleiman (1989) têm servido como base para o trabalho do aspecto metacognitivo, apesar de críticas no que tange à questão do sujeito como senhor soberano de seus gestos de leitura (cf. Nunes, 1994:15). Outros trabalhos, como o de Mary Kato (1985), que centra-se na questão da cognição e metacognição, e o de Ezequiel Teodoro da Silva (1992), que trabalha os fundamentos psicológicos envolvidos no ato de ler, são paradas obrigatórias para o professor no que tange a esse tema.
A Análise do Discurso (Textual)
Um segundo elemento trabalhado quando se trata de leitura em línguas estrangeiras é a Análise do Discurso. Na verdade, em termos de importância e relevância recebida, a Análise do Discurso está bem à frente do aspecto da metacognição, sendo o elemento mais enfatizado, praticamente dominando a prática do ensino de leitura.
A Análise do Discurso a que nos referimos aqui é a que tomou corpo teórico a partir de Zellig Harris (1952), Austin (1962) e Searle (1969), e que possui como expoentes pesquisadores como Halliday, Widdowson, MacCarthy, Coulthard, Hoey e De Beaugrande. Trata-se, na verdade, de lingüística textual, de análise de textos não a nível de conteúdo, mas a nível de estrutura formal. Preocupa-se essa linha de estudo com a "função da língua" (Coulthard, 1977).
O que temos nessa vertente chamada Análise do Discurso (que na verdade engloba alguns desdobramentos teóricos) é um referencial teórico que nos fornece, grosso modo, a radiografia de um texto, tipificando-o em grupos a partir da recorrência de elementos formais. Os títulos de algumas obras sobre o tema podem tornar um pouco mais clara essa nossa tentativa de recorte conceitual: Cohesion in English (Halliday, 1976), Patterns of Lexis in Texts (Hoey, 1991), An Approach to the Teaching of Scientific English Discourse (Widowson, 1974), Introduction to Text Linguistics (De Beaugrande, 1981). Coesão, padrões léxicos, estrutura do discurso científico, lingüística textual: todos exemplos claros do foco na estrutura formal do texto.
Para o ensino da leitura em língua inglesa --voltaremos a discutir alguns aspectos de terminologia mais adiante --, tais procedimentos taxonômicos podem ser de grande valia (e na maioria das vezes o são). Para um aluno que se depara com um texto em uma língua que não a sua, esses elementos de lay-out e recorrência formal são de grande auxílio, pois lhe permitem, ao identificar o tipo ou função de texto, direcionar seus esquemas mentais para o tipo de léxico, sintaxe, etc. que um texto com aquelas características apresenta e requer1.
Portanto, não negamos a utilidade da linha de análise textual para o ensino da leitura. Ela nos fornece uma silhueta do texto sobre o qual iremos trabalhar. Sua grande vantagem é, paradoxalmente, sua grande desvantagem.
Identificado o tipo de texto perguntamos: é uma receita de bolo. E daí? É um artigo de revista. Que mais? É uma coluna de jornal, logo a linguagem é jornalística. É só? O texto x tem y partes, cada qual com a tal e tal função. E então? O texto, nos parece, se encerra em sua estrutura. Isso não é suficiente. É necessário ir além.
4. Leitura crítica: um complemento.
Percebendo a necessidade de ir além da questão meramente da lingüística textual, formal, muitos professores têm se preocupado em introduzir um elemento a mais que parece tomar corpo, chamado de Leitura Crítica.
Por exemplo: após a leitura de um texto onde a jornalista faz críticas a programas na televisão brasileira do estilo Xuxa, sua filosofia, desenhos, etc., há perguntas como: Você concorda ou discorda? Qual a sua opinião a respeito de...? (Oliveira, 1994).
O que se tem chamado de Leitura Crítica é, na verdade, uma tentativa de fazer o aluno se colocar na posição de sujeito-leitor daquele texto. É, a nosso ver, uma tentativa válida, mas que ainda nos parece merecer um aprofundamento maior, que questione, por exemplo, quem é a autora enquanto na posição de sujeito? Por que ela critica? Qual a formação discursiva do meio onde foi publicado o artigo? Como está, a Leitura Crítica vê o leitor como um lugar possivelmente ocupável, mas o autor como elemento neutro, não questionado. Só uma metade é trabalhada. Voltaremos adiante a esses pontos, pois esta pode ser uma lacuna para aquilo que iremos propor.
5. Análise Crítica do Discurso e Análise do Discurso Francesa
A linha de Análise do Discurso a que fizemos referência acima, assim como alguns professores cuja experiência em sala de aula lhes acenou com a "Leitura Crítica", também percebeu que o texto não se encerra no texto. Eis que surge a Análise Crítica do Discurso (ACD).
Segundo Osterman (1994), "os analistas críticos do discurso têm como principal objetivo investigar e conscientizar as pessoas de como a língua é usada não apenas com fins comunicacionais mas também para dominar, e para criar e/ou reforçar diferenças relacionadas a sexo, raça, posições sociais, econômicas e intelectuais entre as pessoas. Todos focalizam a influência bidirecional entre a língua e a sociedade. Em ACD a língua não é somente percebida como representação das práticas sociais, mas também como instrumento capaz de influenciar, criar e/ou transformar a realidade e as relações sociais. ACD, portanto, nada mais é do que uma interpretação de textos (sejam falados ou escritos), através da qual se procura recuperar os significados sociais expressos no discurso através da análise de estruturas lingüísticas, dentro de seus contextos sociais mais amplos". (Grifos nossos).
Como exemplo de ACD, temos os trabalhos sobre gênero desenvolvidos por Caldas-Coulthard (1993), Osterman (1994), Figueiredo (1994) e Heberle (1994), que trabalham uma análise da posição da mulher a partir de elementos textuais.
A ACD merece algumas considerações.
A primeira consideração a ser feita refere-se ao fato dessa linha ir além da língua como instrumento comunicacional, reconhecendo nela função de dominação. É clara a referência à ideologia. Ricoeur (1977), por exemplo, coloca a função de dominação entre as funções da ideologia. Aparece o elemento ideologia.
O segundo ponto, seguindo a seqüência acima colocada por Osterman, é o reconhecimento do caráter dialético entre língua-sociedade, a língua criando e transformando a realidade. Acaba o positivismo descritivo e aparece a língua material, transformando "a realidade e as relações sociais". Surge aqui, nos parece, elementos do materialismo dialético.
Segundo Osterman, a ACD é uma linha "através da qual se procura recuperar os significados sociais expressos no discurso através da análise de estruturas lingüísticas, dentro de seus contextos sociais mais amplos". Eis, então, um terceiro elemento: historicidade.
Ideologia, materialismo dialético, historicidade. Esses três elementos fazem parte já há algum tempo do referencial teórico da Análise do Discurso, linha francesa, iniciada com Pêcheux. Ora, o que nos parece é que a ACD está apontando para uma direção, para uma trilha já percorrida, cometendo até os mesmos erros cometidos pela linha francesa nos seus primórdios, como a valorização ainda excessiva do código lingüísticos e a auto-classificação ainda como uma ciência da "interpretação de textos".
O que se nos apresenta como novidade é na verdade teoria já conhecida. A ACD irá chegar fatalmente a conceitos como formações discursivas, posição de sujeito, interdiscurso, intradiscurso, heterogeneidade, condições de produção, forma-sujeito, polifonia, pré-construído, efeito de sentido, assujeitamento ideológico, autoria, etc.. Está destinada a freqüentar referências, como já o fez e podemos perceber na bibliografia dos trabalhos em ACD, como Althusser (1974), Althier-Revuz (1982), Bakhtin (1979), Benveniste (1988), Courtine (1981), Ducrot (1987), Foucault (1971), Maingueneau (1989), Henry (1992), Robin (1977) e, claro, Michel Pêcheux (1990), entre outros.
Não nos parece sábio, em ciência, ignorar o conhecimento já desenvolvido.
No que tange à posição da Análise Crítica do Discurso e da Análise do Discurso francesa em relação à leitura em língua estrangeiras, podemos afirmar que:
a) a ACD, um clone teórico em fase de desenvolvimento da AD francesa, se encontra inserida de modo incipiente na abordagem de textos em língua estrangeira, mas já se faz presente;
b) a Análise do Discurso francesa, em estado mais avançado em termos teóricos, parece não ter encontrado lugar no trabalho com textos em língua estrangeira (na área de língua inglesa, pelo menos).
Baseados nessas afirmações e constatações, faremos algumas propostas. Antes, no entanto, devemos desfazer a confusão terminológica que parece se instaurar.
Vejamos três pontos: a denominação "Análise do Discurso" versus "Análise Crítica do Discurso", o rótulo "Leitura Crítica" e o adjetivo "instrumental" para qualificar a língua.
Entendemos pelo termo Análise do Discurso a análise de confrontos de formações discursivas. Descartamos o termo "crítica", proposto recentemente, por dois motivos: primeiro por não compreendermos "discurso" como "forma textual", não procedendo daí a distinção feita pela palavra "crítica"; Segundo, um corolário, por considerarmos toda análise, em termos de discurso, crítica.
Segundo ponto a respeito da terminologia: quando nos referimos à leitura, já pressupomos que ela seja crítica, no sentido de confronto de discursos. Não nos parece caber, então, o rótulo "Leitura Crítica". Há aí, a nosso ver, uma redundância.
Por fim, o termo "instrumental" não nos parece adequado, pois a língua é, segundo Paul Henry, um instrumento imperfeito, e mais do que permitir que sejamos seu controlador é ela que parece nos controlar.
6. Propostas
Clarificadas nossas posições, chegamos às seguintes propostas para o ensino de leitura em língua estrangeira:
1. Introduzir a Análise do Discurso, com seu referencial teórico, como abordagem principal para o trabalho com textos, substituindo, assim, a análise textual nessa função.
Um bom roteiro de leitura para aprofundamento teórico em AD pode ser encontrado em Brandão (1994). Ainda é escassa a literatura sobre Análise do Discurso voltada especificamente para a leitura em língua estrangeira. No entanto, pode-se buscar elementos sobre a relação Análise do Discurso-Leitura, de modo geral, nos trabalhos de Eni Orlandi, principalmente Discurso & Leitura (1988), que, apesar de ser uma introdução ao tema, é muito rico em termos de embasamento teórico. Nunes (1994) apresenta também uma excelente introdução à relação leitura-AD.
2. Manter da utilização de Análise Textual, não como foco principal a ser trabalhado em termos de conteúdo, com tem sido a prática, mas como suporte, como auxiliar, no processo. A abordagem de tipologia textual, estrutura do texto, etc., passa a ser complementar. Essa mudança de status proposta para a abordagem dos elementos textuais parece não ser tarefa tão fácil para quem já vem trabalhando com eles como foco central do processo. Na verdade, por experiência própria, é uma tarefa não muito fácil, mas que se apresenta como condição sine qua non dentro dessa proposta.
3. Trabalhar a Metacognição de forma assistemática, inserida, diluída e, se for o caso, de forma a evitar o jargão da área. Na verdade, há muitas situações em que as estratégias metacognitivas são o próprio objetivo da unidade. Funcionam como as funções da abordagem comunicativa: Estabelecendo Objetivos para a Leitura, Utilizando o Conhecimento Prévio, etc.. Ao se implementar a utilização da Análise do Discurso como elemento central de um curso de leitura em língua estrangeira, tais procedimentos dar-se-ão de forma natural como parte do próprio método de abordagem, não sendo tão necessário que se enalteça seu papel.
4. Abandonar do Análise Crítica do Discurso, como referencial, uma vez que sua utilização no processo é optar pelo "novo" obsoleto, quando se pode optar pelo novo atual, a Análise do Discurso. Parece ser essa uma sugestão pouco simpática aos adeptos dessa linha de pesquisa. No entanto, propomos tal atitude por motivos puramente econômicos, em termos de tempo e esforço despendidos.
7. Concluindo
Acreditamos ser esse um momento muito promissor para o ensino de leitura em língua estrangeira. Novos referenciais se nos apresentam como parte do processo de evolução natural dentro da dinâmica do processo ensino-aprendizagem.
Resta-nos agora lançar mão de tais referenciais para que possamos confirmar, na prática de sala de aula, toda essa nova abordagem teórica, realimentando a teoria com o resultado de nossa prática.
Sabemos que a Análise Crítica do Discurso continuará, é claro, a seguir seu caminho. Assim como a Análise do Discurso. Em algum lugar, em algum momento, acreditamos, o presente da ACD se cruzará novamente com o passado da AD.
Nossa crítica à ACD só se dá pelo incômodo de ver pessoas trabalhando, seriamente, no desenvolvimento de uma teoria que já se encontra em estágio avançado, sob outro nome.
No mais, é voltar para a sala de aula e tentar mostrar a eficácia de nossas propostas. Não há lugar melhor para isso.
NOTAS
1 Há exemplos clássicos como "Queque de Pirulas", a receita de Armando Baltra, ou ainda a bula de remédio em grego.
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