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  • This paper was presented by the author at the Conference of the Mid-Atlantic Association of Luso-Brazilianists, Carlisle, Pennsylvania, October 1989.

 

Correntes do determinismo materialista no

pensamento literário luso-brasileiro do século XIX

 

      I. Introdução – Os escritores naturalistas portugueses e brasileiros da última metade do século XIX na sua maioria são vistos pelos historiadores literários como tendo uniformemente aceito e adotado muitos dos preceitos teóricos do naturalismo francês.1 No entanto, uma análise da literatura produzida neste período indicará que estes preceitos foram violados em diferentes graus por diferentes escritores no que eles praticaram. O presente estudo consiste de uma análise comparativa do movimento naturalista em Portugal e no Brasil. O meu objetivo é examinar certos aspectos da descontinuidade entre a ideologia literária do naturalismo francês e as práticas literárias em Portugal e no Brasil, e explorar as maneiras como os naturalistas portugueses e brasileiros diferiram dos seus colegas franceses.

      II. Definição histórica do naturalismo – A história literária tradicional mantém que, como em outros países da Europa e do Novo Mundo, o naturalismo português e brasileiro representou básicamente uma revolta contra o escapismo subjetivo e imaginativo que caracterizou a escola romântica.2 Os escritores do novo movimento foram influenciados pelas teorias biológicas de Darwin, pelo determinismo social de Taine, e sobretudo pela ficção de escritores como Zola, Flaubert, e os irmãos Goncourt. Eles procuraram retratar a sociedade humana e os homens e mulheres que a compõem tão fiel e objetivamente quanto a matéria de estudo científico é examinada e apresentada.

      Stendhal, Balzac, e Flaubert foram os precursores do movimento; os irmãos Goncourt, Maupassant, Daudet, e, acima de tudo, Zola formularam os princípios e se dedicaram à prática do novo gênero. Em técnica o trabalho dos naturalistas franceses foi marcado por um método narrativo objetivo, imparcial, por meticulosa acuracidade de detalhe, e pelo acentuado cuidado na descrição e documentação do fundo histórico. Estes escritores enfatizaram na sua ficção o meio ambiente, tanto físico como social, dos personagens e o relacionamento totalmente subordinado do indivíduo a este. Há no romance naturalista um senso penetrante do controle exercido nas ações e no destino dos personagens por forças impessoais, sociais e biológicas, e o livre arbítrio humano geralmente é retratado como sendo fraco e praticamente ineficaz.

      Apesar da semelhança de método, há algumas diferenças, embora pequenas, nos objetivos dos escritores naturalistas franceses. Os irmãos Goncourt se empenharam em produzir uma análise fria da miséria social, ao passo que Flaubert justificou seu método minuciosamente descritivo com base em razões estéticas. Zola, por outro lado, usou tanto sua técnica como a sua matéria de estudo no serviço do seu afã por reforma social. Todos eles, não obstante, concordam de uma forma ou outra com a filosofia determinista da influência da la race, le milieu, et le moment proposta por Taine na formação do caráter moral, e aceitaram a noção que o romance deveria ser uma forma de case-study [caso clínico] humano, amplamente documentado com fatos esclarecendo os antecedentes e circunstâncias dos personagens. Como resultado, o romance se torna mais violento e brutal. Muitos deles enfatizam a parte mais reles e atroz da natureza humana, e freqüentemente os seus personagens são casos patológicos à mercê do seu meio ambiente ou dos seus instintos criminais inatos. Estes indivíduos são extraidos do nível mais baixo da sociedade e nenhum detalhe de suas sórdidas e miseráveis vidas parece ser omitido.

      Vários historiadores literários consideram o naturalismo como uma forma exagerada do realismo.3 Críticos tais como Afrânio Coutinho, Massaud Moisés e Nelson Werneck Sodré mantém que a diferença entre os dois movimentos se acha na característica pseudo-científica dada ao movimento naturalista pelo seu líder, Émile Zola.4 Este tentou aplicar à ficção os métodos de observação e experimentação defendidos pelo médico francês Claude Bernard na sua obra Introduction à l’étude de la médecine expérimentale, um livro que causou muita controvérsia na sua publicação em 1865. Zola traçou uma analogia entre as funções do cientista e do escritor, e em 1880, quando o movimento estava no seu apogeu e ele já havia escrito vários romances ilustrativos de suas teorias, ele produziu Le roman expérimental, que foi recebido e permanece até hoje como o manifesto e a obra teórica mais representativa do movimento naturalista.

      Num romance naturalista típico como Rougon-Macquart de Zola, o autor procede através de experimentação e análise, da hipótese à demonstração. Ele seleciona situações específicas que corroboram a sua tese e dota os seus personagens com temperamentos conflitivos que são retratados como sendo conseqüência direta da hereditariedade e do meio ambiente. Através da acumulação de detalhes, ele procede em seguida à uma demonstração lógica que dada esta situação e estes temperamentos a luta obrigatoriamente terá uma conclusão inevitável: a eventual destruição do indivíduo. Dessa maneira o naturalismo veio a dar a entender que a arte do escritor, além de visar prover uma reprodução fiel da natureza, requeria, por assim dizer, os métodos de laboratório das ciências naturais.

      Em geral, o objetivo dos naturalistas era dar uma reprodução fiel e meticulosa da vida em todos os seus aspectos. O romance devia representar histórias que pudessem ter acontecido. Dessa forma ele devia ser documentado como um trabalho de história ou um experiência científica, com a mesma atenção cuidadosa para com a verdade. Cada fato, cada detalhe era para ser registrado sem suavidade, exagêro, ou descrição incidental, e com pouca ou nenhuma atenção ao estilo. A imaginação e a sensibilidade, o amor pela forma, o esforço para transmitir uma beleza idealizada e irreal já não importavam. Enredos complicados, acontecimentos catastróficos, ou paixões arrebatadoras eram vistos acima de tudo como falsificações da verdade. Muitos dos personagens dos romances naturalistas são extraidos da vida cotidiana contemporânea e geralmente eles são da classe baixa, operária ou burguesa, oriundos de um meio ambiente onde se cria que se podia encontrar uma verdade mais nua e autêntica.

      O meio ambiente, em vez dos personagens, ocupa uma posição central e privilegiada no romance naturalista. Os naturalistas aceitaram e se dedicaram à adaptação dos princípios do determinismo científico ao romance. De acordo com estes princípios, o homem é uma espécie de animal indefeso, subjugado por forças internas ou externas sobre as quais ele não pode exercer nenhum controle e que irrevogavelmente ameaçam destruí-lo. O universo, encarado deste ponto de vista, funciona completamente de acordo com princípios newtonianos e nem tem direção nem propósito moral. De Darwin os naturalistas adotaram o conceito do determinismo biológico que caracteriza a sua obra On the Origin of the Species, ao passo que Herbert Spencer lhes deu uma teoria social que refletia a lei da unha e do dente, e a sobrevivência do mais forte.

      III. Para uma reavaliação do naturalismo português e brasileiro – O movimento naturalista na Europa e no Novo Mundo tem tradicionalmente tido dois enfoques à sua definição. O primeiro mantém que já que cronologicamente o naturalismo vem depois do realismo, e já que parece conduzir a literatura na mesma direção geral que o realismo, este gênero é basicamente uma extensão ou continuação do realismo, com algumas diferenças secundárias. Chamando atenção para estas diferenças e ao mesmo tempo baseando-se nelas, o segundo enfoque consiste na negação do primeiro. A diferença mais saliente entre o realismo e o naturalismo, a maioria dos críticos concordam, é a específica orientação filosófica dos naturalistas. Uma visão tradicional e amplamente aceita, portanto, é que o naturalismo é essencialmente uma excrescência do realismo infundida em um determinismo pessimista. A opinião geral é que os naturalistas eram como os realistas na sua fidelidade para com os detalhes da vida contemporânea, mas que eles retratavam o dia-a-dia com maior consciência do papel desempenhado por forças tais como a hereditariedade e o meio ambiente na formação do pensamento e comportamento dos indivíduos nos seus romances.

      Este enfoque tradicional ao naturalismo através do realismo e do determinismo filosófico é historicamente justificável e tem sido útil, mas também tem dificultado tanto o estudo do movimento em geral como a análise de específicas variações nacionais do gênero tais como as produzidas em Portugal e no Brasil. Tem resultado na má interpretação ou até mesmo em condescência para com escritores tais como Aluísio Azevedo e Eça de Queirós, que são reconhecidos como tendo introduzido o naturalismo no Brasil e em Portugal respectivamente, e no entanto cujo sensacionalismo (um aspecto do romantismo) ou ambigüidade moral (uma qualidade incompatível com os ditames absolutos do determinismo materialista) parecem fazer os seus trabalhos incoerentes com os princípios prescritivos do gênero.

      A fim de que possamos examinar mais detalhadamente estas descontinuidades e tentar explicá-las dentro do contexto deste estudo, eu gostaria de propor uma reavaliação da maneira como os preceitos teóricos do naturalismo francês foram adotados e adaptados pelos escritores portugueses e brasileiros. Tal tarefa requer que o movimento nestes dois países seja examinado não somente como o resultado de influências estrangeiras, mas também como o produto nativo de duas tradições literárias bem estabelecidas. Um reavaliação feita dentro de tais parâmetros inevitavelmente resultará numa definição modificada do naturalismo português e brasileiro.

      O romance naturalista geralmente contém duas tensões ou contradições, que em conjunto abrangem tanto uma interpretação da vida como também uma específica recriação estética do viver. Em outras palavras, as duas constituem o tema e a forma da experiência humana no universo do romance naturalista. A primeira tensão é aquela entre a matéria de estudo do romance naturalista e o conceito do homem que emerge desta matéria. O naturalista povoa os seus romances principalmente com indíviduos da classe média ou baixa. Os seus personagens são os pobres, os analfabetos, os brutos. O mundo de suas obras é aquele do cotidiano no qual a vida parece ser mormente a enfandonha rotina do dia-a-dia. Porém, os naturalistas portuguese e brasileiros, ao contrário dos seus colegas na França, descobrem neste mundo fastidioso aquelas qualidades do homem geralmente associadas com o heroismo ou a aventura, tais como atos de violência, paixão, amor, e bondade, que culminam nas suas obras em trechos de intensificada sensibilidade.

      O desfecho de O cortiço de Aluísio Azevedo é ilustrativo desta qualidade heróica. O final trágico deste romance é estruturado em redor de uma cena tocante, cujo lirismo e carga emocional muito raramente são encontrados em obras naturalistas. A escrava Bertoleza, comportando-se de uma maneira não totalmente coerente com o mundo determinista e pessimista do romance naturalista, finalmente toma controle do seu destino ao escolher a morte em vez de ser entregue, como mercadoria, pelo seu amante ao seu antigo dono.

      O romance naturalista português e brasileiro pode então ser visto como uma extensão do realismo, mas somente no sentido que ambas modalidades geralmente lidam com temas locais e contemporâneos. Estes são, como regra geral, os limites do realismo. Os naturalistas em Portugal e no Brasil, entretanto, vão além dos seus colegas realistas quando eles tentam descobrir na matéria e assunto de suas obras literárias certas qualidades extraordinárias e excessivas da natureza humana, como Eça de Queirós habilmente ilustra no seu desenvolvimento do caso entre o padre Amaro Vieira e sua futura amante, Amélia, em O Crime do Padre Amaro.

      A segunda tensão envolve o tema do romance naturalista. Escritores naturalistas como Zola freqüentemente descrevem os seus personagens como se eles estivessem condicionados e controlados pelo meio ambiente, hereditariedade, instinto, ou pelo acaso. Até certo ponto, os naturalistas portugueses e brasileiros fazem o mesmo, mas eles sugerem um valor humanitário compensativo nos seus personagens, ou nos destinos destes que afirma o sentido e a importância do indivíduo e de sua vida. A tensão aqui é entre a vontade do autor de representar na sua ficção literária, por um lado, as verdades rudes e desagradáveis que ele vislumbrou nas idéias e na vida do seu mundo, e, por outro lado, o seu desejo de encontrar algum significado na vida que reafirme a validade desta e do empreendimento humano. Ao contrário de muitos dos seus companheiros da Europa e do Novo Mundo, os naturalistas de Portugal e do Brasil parecem chamar atenção para o fato de que embora o indivíduo possa ser apenas uma cifra insignificante num mundo amoralizado e desmoralizado pela falta de responsabilidade humana, a nossa imaginação recusa aceitar esta fórmula como o significado total da vida, e procura portanto uma nova base de onde possamos reafirmar o senso de dignidade e importância do homem.

      Zola descreve o personagem principal em Nana como uma mulher dissoluta, irremediavelmente subjugada pela da vida do vício e ao mesmo tempo desfrutando deleitosamente dos prazeres desta vida, “dans le vice comme un poisson dans l’eau,” [no vício, como peixe n’água] ao passo que Azevedo retrata Pombinha, a jovem prostituta em O cortiço, como uma pobre menina que é arrastada à licenciosidade e prostituição contra a sua vontade. Antes de se tornar prostituta Pombinha é descrita por Azevedo como

a flor do cortiço . . . quem a encontrasse à missa na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço.5

      Em vez de terminar destruida por um meio ambiente hostil, como seria de se esperar num romance naturalista típico, Pombinha emerge vitoriosa da sua luta contra as forças que ameaçavam aniquilá-la, e consegue atingir, em termos relativos, um razoável nível de sucesso. A última imagem que temos dela é bastante reveladora:

Agora as duas cocotas [Pombinha e Léonie] dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro . . . Pombinha, só com tres meses de cama franca, fizera-se tão perita no ofício como a outra.6

      O romance naturalista português e brasileiro não é, portanto, tão superficial ou redutivo como implicitamente é feito parecer na sua definição convencional. Ele envolve uma crença que a vida nos níveis mais baixos não é tão simples como pode parecer de planos mais altos. Sugere que mesmo o ser humano menos significante pode sentir e lutar vigorosamente e pode sofrer as conseqüências extraordinárias de suas emoções, e que nenhum âmbito da experiência humana está livre de complexidades ou ambigüidades morais.

      O romance naturalista Luiza-Homem do brasileiro Domingos Olímpio tem como tema central o sofrimento humano. Nesta obra cada um dos personagens principais reflete um certo aspecto desta experiência universal. Como corretamente nota Dorothy Loos,7 isso é de certa forma raro para um romance naturalista porque o sofrimento é considerado um tema de relevância como matéria de estudo num romance de propósito, não num universo naturalista. Sem dúvida, os personagens deste romance são obscurecidos por um meio ambiente físico no qual as pessoas são oprimidas e destruidas por secas e outras tragédias da natureza, no entanto a indagação mordaz e penetrante dos personagens sobre a sua situação sugere que o pensamento de Olímpio não está contido completa ou nitidamente dentro dos limites de um universo naturalista mecânico que subjuga e esmaga por completo os seus habitantes.

      O naturalismo português e brasileiro reflete um conceito de vida positivo e ético. Afirma incondicionalmente o valor da existência humana ao dotar os personagens mais simples com emoção, honra, desejo, compaixão, e ambigüidade moral, sem importar quão pobre ou humilde ele ou ela possa ser. O romance naturalista de Portugal e do Brazil deriva boa parte do seu efeito estético destes contrastes. Ele nos envolve na experiência de uma vida que é ao mesmo tempo trivial e extraordinária, familiar e estranha, desprezível e lírica, simples e complexa. Ele nos agrada com o seu sensacionalismo e sensualidade sem ofender o nosso senso de probabilidade. Ele descobre para nós “the romance of the commonplace,” [o romance do lugar comum] como expressou o escritor naturalista norte-americano Frank Norris. Desse modo, a “confusão” moral e o sensacionalismo melodramático que são criticados na Europa por supostamente haverem diminuido ou prejudicado a unidade literária e o valor estético do romance naturalista francês deve – no que se diz respeito aos naturalistas portuguese e brasileiros – em verdade ser incorporado a uma definição normativa desta modalidade e ser reconhecido como sendo componentes essenciais de duas singulares variações nacionais do gênero.

      O objetivo principal dos naturalistas portugueses e brasileiros da última metade do século XIX não era demonstrar a realidade opressiva e esmagadora das forças materiais presentes em nossas vidas. Eles tentaram, em vez disso, representar a entremesclagem na vida de forças controladoras vis-à-vis a dignidade pessoal dos seus personagens. Se eles não quiseram ou não puderam distinguir claramente entre estes dois elementos importantes da experiência humana, isso pode ser explicado em parte porque eles eram escritores que estavam reagindo às complexidades da vida e não eram filósofos que estavam categorizando o viver, e em parte porque eles já eram suficientemente produtos da era moderna, do nosso tempo, do nosso pensar, pois duvidavam da validade de absolutos morais ou de qualquer outro tipo de absoluto. Os naturalistas portugueses e brasileiros não desumanizam o homem. Ao contrário, eles sugerem novas áreas ou áreas modificadas de valor no ser humano ao mesmo tempo que se empenham em destruir velhas e para eles irreais fontes de presunção tais como o amor romântico, a responsabilidade moral ou o heroismo. Não devemos nem podemos negar a existência de uma visão um tanto desoladora do homem e do seu mundo em trabalhos tais como O cortiço e Casa de Pensão de Aluísio Azevedo, ou O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio de Eça de Queirós, mas tampouco devemos esquecer que para estes naturalistas as fraquezas, o conhecimento limitado e os desejos frustrados do homem ainda representavam e funcionavam como fontes de compaixão e de dignidade assim como aspectos da condição humana a ser representados na sua ficção com exatidão e franqueza.

      Um romance naturalista que consegue levar a cabo os seus objetivos é como qualquer outro trabalho de arte eficaz que concretiza uma relação convincente entre sua forma (a combinação específica do cotidiano e do sensacional) e o seu tema (a tensão entre o que é significativo para o indivíduo e a realidade que determina o seu destino e muitas vezes o oprime ao ponto de destruí-lo). Há uma diferença importante, dentro de similaridades gerais, entre a descoberta do sensacional no cotidiano por parte de Azevedo e a dramatização da trivialidade no sensacional por parte de Eça. Esta variação é derivada principalmente da tensão temática que diferencia os dois escritores. Em O cortiço, Azevedo deseja demonstrar a destruição trágica do mundo cotidiano e inocente de vários personagens. No caso de Pombinha, este mundo é destruido pela violência e licenciosidade inerente em todos os aspectos da vida que a cerca, ao passo que em O Primo Basílio, Eça pretende dramatizar a violenta iniciação de Luisa e Basílio à rotina do heróico, isto é, à situações que são ao mesmo tempo triviais e extraordinárias e que são determinadas por atos de paixão, aventura, amor, violência e bondade. Azevedo e Eça ocupam posições no naturalismo luso-brasileiro análogas às de Frank Norris e Stephen Crane na literatura norte-americana. Como as obras dos seus colegas norte-americanos, a fiçcão dos naturalistas portugueses e brasileiros expressam visões contrastantes e sumamente individuais da experiência humana. No entanto, tal expressão é articulada dentro de um conjunto de posições intelectuais e literárias compartilhadas por escritores que estão ligados entre si por um momento histórico, cultural e literário comum. Desse modo o romance naturalista de Portugal e do Brasil não é de nenhuma forma diferente de qualquer outro gênero literário importante na sua complexa entremesclagem de forma e tema, na sua reflexão do temperamento individual e cultural e da experiência de um autor dentro de amplas similaridades genéricas, e – no seu maior brilho, o que eu creio ser o caso no que se diz respeito a Azevedo e Eça – na sua profundidade e importância temática.

      Estaremos fazendo uma grande injustiça aos naturalistas portugueses e brasileiros se insistirmos em manter a nossa antiga concepção simplística de sua arte. O exame do naturalismo nestes dois países através de um enfoque que encara o movimento como pouco mais do que o resultado de influências estrangeiras deixa muito a desejar porque, como mui habilmente faz ver Dorothy Loos,

. . . it disregards the obvious fact that [Portugal and] Brazil had a novelistic tradition of [their] own and that the naturalistic novel, though produced to some extent under the technical aegis of a foreign literary fashion, could not . . . turn its back completely on its own tradition or fail to concern itself with those themes, problems and ideas which were central to the period and locale in which it was written.8

. . . ignora o fato óbvio que [Portugal e] o Brasil tinham uma tradição novelística própria e que o romance naturalista, embora produzido até certo ponto sob a influência técnica de um estilo literário estrangeiro, não poderia . . . ficar alheio completamente à sua própria tradição ou deixar de se ocupar com os temas, problemas e idéias que foram fundamentais para o período e local no qual [o romance naturalista luso-brasileiro] foi escrito.

 

Notas

      1 Antônio Soares Amora, História da literatura brasileira (São Paulo Edição Saraiva, 1960), pp. 81-129.
      Afrânio Coutinho, Introdução à literatura no Brasil (Rio de Janeiro: Livraria São José, 1964), pp. 179-199.
      Claude Hulet, Brazilian Literature, vol. 2 (Washington, D.C.: Georgetown University Press, 1974), pp. 2-45.
      Dorothy Loos, The Naturalistic Novel of Brazil (New York: Hispanic Institute, 1963).
      Massaud Moisés, História da literatura brasileira, vol. 2 (São Paulo: Editora Cultrix, 1984), pp. 311-390.
      Massaud Moisés, A literatura portuguesa (São Paulo: Editora Cultrix, 1965), pp. 227-296.
      Nelson Werneck Sodré, O naturalismo no Brasil (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965).
      José Veríssimo, História da literatura brasileira (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969), pp. 237-259.

      2 Coutinho, Introdução à literatura no Brasil, pp. 139-178.
      Moisés, História da literatura brasileira, pp. 3-307.
      Moisés, A literatura portuguesa, pp. 153-225.

      3 Amora, História da literatura brasileira, pp. 81-129.
      Moisés, História da literatura brasileira, pp. 311-390.
      Sodré, O naturalismo no Brasil, pp. 13-39.

      4 Coutinho, Introdução à literatura no Brasil, pp. 179-199.
      Moisés, Literatura portuguesa, pp. 227-296.
      Sodré, O naturalismo no Brasil, pp. 13-39.

      5 Aluísio Azevedo, O Cortiço (São Paulo: Editora Ática, 1981) 31.

      6 Azevedo, O Cortiço, 155.

      7 Loos, The Naturalistic Novel of Brazil, p. 85.

      8 Loos, The Naturalistic Novel of Brazil, pp. 11-12. Unless otherwise indicated, all English translations of passages from Dorothy Loos’s book, O cortiço, Santa, and any other material quoted in the original foreign language (French, Spanish, or Portuguese) in this paper are my own.



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