Copyright © November / Novembro 2002 João Sedycias.
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PROJETO DE PESQUISA E PLANO DE TRABALHO

“A Internet no Ensino de Línguas Estrangeiras”

1. TEMA

2. CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

Estamos vivenciando neste exato momento uma das maiores revoluções do conhecimento humano: a saber, o fenômeno sócio-cibernético conhecido genericamente como a “Internet” e a democratização mundial da informação. O conceito de “paradigm shift” (mudança ou deslocamento de paradigma) do historiador norte-americano Thomas Kuhn se presta muito adequadamente como ponto de partida numa possível explicação da reviravolta epistemológica pela qual estamos passando. Assim, podemos afirmar que estamos no presente momento perante uma “mudança de paradigma” de proporções colossais, cujas conseqüências afetarão irrevogavelmente a maneira como a nossa sociedade lida com o conhecimento e a informação. Falo do paradigma que definiu por vários séculos a estrutura e método epistemológico humano, paradigma este que está se metamorfoseando perante os nossos próprios olhos e que está também transformando praticamente todas as áreas do conhecimento humano, a maneira como esse conhecimento é produzido e como o mesmo é disseminado.

Devido às profundas transformações que vem causando, muitos consideram a Internet não somente uma mudança de paradigma extremamente significativa como também um dos avanços tecnológico-sociais mais importantes e revolucionários pelo qual a civilização humana já passou. A distância entre o modelo de produção e disseminação de informação que temos atualmente e o que havia antes do advento da Internet é de proporções gigantescas. Hoje a maioria das pessoas, mesmo aquelas em países de terceiro mundo com uma infra-estrutura limitada, pode, sem muita dificuldade e a um custo relativamente baixo, ter acesso a informações localizadas nos lugares mais distantes da terra, que antes seriam praticamente impossíveis de se obter.

Porém, o que faz com que esse simples ato de acesso se transforme em algo revolucionário é o fato de essa pessoa também poder produzir, controlar e disseminar informações em larga escala e até em âmbito mundial. Até pouco tempo apenas as grandes companhias de mídia podiam fazer isso, usando os meios de comunicação convencionais. Essa profunda alteração paradigmática já está afetando, e no futuro com certeza afetará ainda mais, toda a estrutura de produção e disseminação de informações existente no mundo, a qual é controlada atualmente por um número relativamente pequeno de entidades corporativas ou governamentais. Com a Internet uma pessoa qualquer (um professor ou aluno universitário, por exemplo) pode, de sua própria casa, oferecer um serviço de informação de alcance mundial, a partir de um computador pessoal, sem precisar da estrutura que no passado só uma empresa de grande porte podia manter. Esse novo paradigma e o resultante modelo de produção e disseminação de informação abrem perspectivas e caminhos completamente novos com relação aos mercados para profissionais e empresas interessadas em oferecer serviços de informação específica.

3. JUSTIFICATIVA

Comparado ao presente estado da maioria das universidades norte-americanas – onde até recentemente eu lecionava (California State University, Sacramento) – o ensino de línguas estrangeiras tanto na UFPE como na grande maioria das universidades brasileiras e latino-americanas infelizmente não tem se beneficiado, tanto quanto poderiam tê-lo feito, dos modernos e eficientes métodos de ensino-aprendizagem nesse campo desenvolvidos na última década. Especificamente, os avanços alcançados nas áreas de computadores e da Internet no ensino de línguas estrangeiras representam um desenvolvimento muito promissor para essa disciplina. Esses avanços devem ser estudados, explorados e amplamente utilizados pelos nossos alunos no seu ambiente acadêmico e de trabalho. Só assim eles poderão desfrutar amplamente da extraordinária vantagem de ter ao seu dispor essa tecnologia de ponta e de competir eqüitativamente com os seus colegas de outras instituições tanto no Brasil como no exterior.

4. OBJETIVOS

O objetivo principal deste projeto de pesquisa se divide em duas partes complementares, uma na área de pesquisa e a outra na área de ensino:

  1. Pesquisa – Conhecimento operacional das novas tecnologias (treinamento e capacitação técnica), pesquisa, análise e reflexão crítica sobre as possibilidades oferecidas pela tecnologia da informação no ensino de línguas estrangeiras, principalmente no que diz respeito à Internet. Especificamente, investigaremos e almejaremos capacitação e proficiência técnica nas linguagens HMTL, Java e CGI Script; e

  2. Ensino – Como parte pedagógica complementar, essencial para nossa missão docente na UFPE, este projeto incluirá também a produção de material didático para o ensino de línguas estrangeiras, especificamente as línguas inglesa e espanhola, usando a Internet como ferramenta de disseminação.

Propomos, portanto, pesquisar, analisar, desenhar e produzir material didático, tanto estático como interativo, para uso em computadores e também em mídia hipertexto (Internet), esta última nas linguagens HTML, Java e CGI, especificamente para atender às necessidades dos nossos alunos de línguas estrangeiras na Universidade Federal de Pernambuco. Essa produção será feita principalmente para o ensino/aprendizagem das línguas inglesa e espanhola, mas poderá também incluir qualquer uma das outras línguas que oferecemos no nosso departamento (i.e., francês, alemão, italiano, etc.), contanto que tenhamos no projeto a participação de professores e alunos desses idiomas.

Já que esse material será colocado e estará livremente disponível na Internet, o mesmo poderá, também, ser de muita utilidade para professores estudantes de outras universidades brasileiras. Pretendemos eventualmente estabelecer na UFPE um centro de intercâmbio de informações nesse campo (i.e., a tecnologia da informação no ensino de línguas estrangeiras) asssim como um fórum permanente de discussão sobre o assunto.

No que diz respeito à Internet, pretendemos identificar recursos, tanto estáticos como interativos, disponíveis na rede mundial que possam ser úteis no ensino de línguas estrangeiras. Também identificaremos e analisaremos várias áreas de dificuldade na aprendizagem das línguas espanhola e inglesa do ponto de vista do aprendiz brasileiro. A partir dessa análise, desenharemos e produziremos material pedagógico original que possa vir atender às necessidades do estudante brasileiro nessa específica área de dificuldade. O formato do material a ser produzido será em hipermídia, escrito na linguagem HTML, com o devido apoio de outras linguagens tais como Java e CGI Script. Esse material será colocado em caráter permanente na Internet.

O projeto de pesquisa aqui proposto se adequa perfeitamente ao ambiente de investigação acadêmica do programa de pós-graduação do Departamento de Letras da UFPE, complementando de forma significativa as atividades de docência e pesquisa que se ocupam do processo aquisicional e do ensino formal de língua estrangeira. Mais especificamente, este projeto se encaixa na linha de pesquisa “Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas Estrangeiras” do grupo de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística “Núcleo de Estudos em Compreensão e Produção (Inter) Lingüística,” liderado pela Profa. Dra. Abuêndia Padilha Peixoto Pinto e pelo Prof. Dr. Francisco Cardoso Gomes de Matos –

Este projeto de pesquisa atenderá, também, de forma tangível e imediata, às necessidades pedagógicas do nosso programa de graduação em línguas estrangeiras. Através da análise, desenho e produção de material didático original, o projeto de pesquisa acima citado pretende estabelecer ou consolidar novos campos de ensino e pesquisa na nossa universidade e região, focalizando principalmente nas possibilidades oferecidas por tecnologias de ponta tais como as aplicações de informática e a Internet. Almeja, desta forma, executar um projeto de pesquisa que possa servir na formação de um quadro de excelência específico no ensino de línguas estrangeiras, atendendo de forma ágil e cabal às necessidades dos estudantes dessa disciplina tanto em Pernambuco como no Nordeste.

Gostaria de salientar, também, que o tema abordado no meu projeto de pesquisa apresenta interfaces não só com outros grupos de pesquisa do Departamento de Letras – como demonstramos acima – mas também com outras áreas acadêmicas da UFPE (Ciência da Computação, Educação, Comunicação). Essa sinergia interdisciplinária poderá, no futuro, vir a facilitar a emergência de projetos conjuntos e/ou integrados.

5. METODOLOGIA

Com referência a este aspecto do projeto de pesquisa aqui proposto, é necessário identificar duas dimensões diferentes:

A abordagem a ser usada nas duas dimensões mencionadas acima será embasada na metodologia da ACTFL (American Council on the Teaching of Foreign Languages), que enfatiza um ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras que:

Mais especificamente, para esclarecer com mais detalhes a metodologia a ser usada no projeto de pesquisa aqui proposto e a minha (Prof. João Sedycias) filosofia de ensino em geral, transcrevo abaixo um documento padrão que se usa comumente nas universidades norte-americanas, a “Declaração de Filosofia de Ensino” (Statement of Teaching Philosophy):

6. DECLARAÇÃO DE FILOSOFIA PEDAGÓGICA

Considero-me uma pessoa de muita sorte por ser professor universitário, trabalhando em um campo que é ao mesmo tempo estimulante e emocionante e fazendo algo que realmente amo. De 1980 até o presente, lecionei mais de trinta disciplinas em inglês, espanhol e português para estudantes com uma gama de necessidades, nível de preparação e formação cultural bastante extensa e diversificada, tanto no Brasil como no exterior. Com base na minha experiência profissional e na pesquisa pedagógica e diretrizes defendidas por organizações tais como a ACTFL (American Council on the Teaching of Foreign Languages – Conselho Norte-Americano sobre o Ensino de Línguas Estrangeiras) e a MLA (Modern Language Association of America – Associação Norte-Americana de Línguas Modernas), que aceito e uso nas minhas aulas, pode-se discernir vários princípios relevantes que instruíram e moldaram a minha filosofia de ensino ao longo dos anos.

Diretrizes para Aulas de Língua Estrangeira

Acredito que o objetivo para a maioria dos alunos em uma classe de língua estrangeira seja dominar (i.e., obter competência comunicativa) a língua-alvo. O método de ensino que uso nas minhas aulas de inglês, espanhol ou português está embasado nessa premissa. Portanto, tento assegurar-me de que as seguintes diretrizes sejam observadas em todas as aulas de língua que leciono, independentemente do seu nível. A aula deve:

  1. Priorizar o aluno. Os estudantes, e não o professor, devem ter ampla oportunidade de praticar a língua-alvo. Como professores, não devemos jamais esquecer que os alunos são a razão por que estamos na sala de aula. São, portanto, a nossa raison d’être.

  2. Priorizar a competência comunicativa do aluno. O professor não está na sala de aula para ensinar regras gramaticais per se e sim para facilitar a aquisição por parte dos alunos de habilidades que lhes permitam se comunicar adequadamente usando a língua-alvo.

  3. Refletir e retratar a vida real dos falantes nativos da língua-alvo, e sempre que possível usar materiais oriundos de contextos reais e autênticos.

A priorização do aluno remete ao meu esforço consciente de gastar o mínimo de tempo “discursando” em aula. Em vez disso, tento fazer com que os meus estudantes usem o tempo da aula para praticar a língua-alvo. Assim como quando se aprende a nadar, os alunos só dominarão a língua-alvo se eles próprios a praticarem. Se quem “nada” sou eu, eles terão menos proveito do que se forem eles quem “nadar.” Eles aprendem a língua praticando. Enfatizo as atividades dos alunos, tanto na aula como fora dela, tentando fazer com que eles usem qualquer oportunidade que tiverem para pôr em prática os seus conhecimentos da língua-alvo comigo, com seus colegas ou com outros professores.

A priorização da competência comunicativa do aluno se baseia nas diretrizes da ACTFL no que diz respeito ao aprendizado de línguas estrangeiras e se refere a habilidades reais e utilizáveis na língua-alvo, ao contrário da visão mais tradicional do número de anos que o aluno passou estudando a língua.

A orientação de conteúdo (i.e., a necessidade de refletir e retratar a vida real dos falantes nativos da língua-alvo) da minha filosofia de ensino se baseia também nas diretrizes da ACTFL e se refere a materiais oriundos de contextos reais e autênticos que proporcionem aos nossos alunos tópicos de exploração enfatizando temas atuais, reais e interessantes.

Como produto de um ambiente internacional, acredito na filosofia e no modus operandi defendidos pela ACTFL e a MLA, e tento incorporar essas diretrizes em todas as minhas aulas de língua e literatura estrangeira. O método descrito acima é algo que faço muito naturalmente, pois foi assim que adquiri as línguas estrangeiras que falo hoje (inglês, espanhol, francês, alemão, hebraico e norueguês).

Modus Operandi de Aulas de Língua Estrangeira

Acredito que uma língua estrangeira deva ser ensinada no contexto de sua cultura e que o professor deva estar bem informado sobre esse aspecto da língua. Além disso, sempre que possível a língua-alvo deve ser enfocada e estudada em contexto, não somente lingüístico mas também social e situacional. A aprendizagem de uma língua estrangeira deve ser ativa, agradável e deve enfatizar a auto-expressão do aluno, porque a motivação deste é profundamente influenciada pelo seu desejo de se comunicar de forma significativa sobre tópicos relevantes.

Isso não quer dizer que não haja espaço nas minhas aulas para a gramática, especialmente se estamos lidando com tópicos que são particularmente difíceis para estudantes lusófonos de língua inglesa, tais como a colocação (collocation), o inventário fonológico inglês, o uso das preposições, os verbos compostos, etc. Na aula, respondo de forma sucinta e rápida quaisquer perguntas sobre gramática usando exemplos em contexto, e sempre tento usar a língua-alvo para dar essas explicações. Se os alunos não têm perguntas, então certifico-me de que eles compreenderam os pontos gramaticais em questão, através de breves conversações usando essas estruturas, verificando o trabalho de casa ou aplicando um pequeno teste. É nessa hora – quando enfocamos questões gramaticais – que corrijo erros ou lido com quaisquer dúvidas sobre a estrutura formal da língua que eles possam apresentar.

Uma maneira de esclarecer perguntas sobre gramática (que os estudantes invariavelmente fazem) numa aula dedicada à aquisição de competência comunicativa na língua-alvo é lidar com essas perguntas sempre usando o idioma estrangeiro. Dessa forma podemos cumprir a principal exigência da competência comunicativa, já que estaremos produzindo uma situação contextualizada, na qual tanto o professor como os alunos interagem e se comunicam de forma significativa e natural sobre tópicos relevantes para ambos usando a língua-alvo.

Sempre que estou envolvido numa conversação na língua-alvo com um aluno, tento não corrigir explicitamente possíveis erros gramaticais que ele ou ela venha a fazer, a não ser que esses erros impossibilitem a devida compreensão do que a pessoa esteja tentando dizer. Se esse for o caso, tento corrigir o aluno com “insumo de apoio” [“sympathetic feedback”], reagindo de forma positiva e compreensiva e expressando corretamente, com outras palavras, o que o aluno acaba de dizer. Não é preciso dizer que é muito importante para um professor de língua estrangeira ter paciência e ser um ouvinte atento. Nas minhas aulas, estou sempre tentando falar menos e escutar mais. Não obstante, estou ciente de que o método descrito acima não é o único enfoque eficiente de ensino de línguas estrangeiras e, contanto que sejam eficazes, estou aberto para novas idéias e abordagens.

A Internet como Ferramenta no Ensino de Línguas Estrangeiras

Comecei a estudar as línguas de programação da World-Wide-Web (HTML, DHMTL, Java e CGI Script, etc.) em 1996, e há aproximadamente três anos comecei a usar a Internet como um importante componente nas minhas aulas de língua estrangeira na Universidade de Brasília. A Internet oferece muitas possibilidades e até agora tem demonstrado ser um excelente fórum e instrumento de ajuda pedagógica para mim e para os meus alunos nas nossas discussões acerca de como abordar e elaborar novas maneiras para melhor compreender e dominar certos aspectos problemáticos das línguas inglesa e espanhola com relação ao idioma português.

O modus operandi que empreguei na Universidade de Brasília, e que pretendo continuar usando na UFPE – com a ajuda do Programa Enxoval – nas aulas de língua estrangeira que farão uso extensivo da Internet é relativamente simples: a partir de sugestões feitas pelos meus alunos ou a partir da minha percepção de alguma dificuldade que eles possam estar tendo com a língua-alvo, colocarei informação na Internet lidando com esse problema. O material colocado no ar será lido e analisado pelos alunos em casa, discutido e exercitado na aula em um contexto comunicativo e, a partir do retorno que recebo deles, farei as mudanças ou adições necessárias. Os alunos voltarão a analisar e exercitar o mesmo material e seguiremos adiante a partir desse ponto, percorrendo as mesmos passos básicos descritos acima, até atingirmos domínio comunicativo da estrutura em questão.

O meu uso da Internet em cursos de língua estrangeira é feito com dois objetivos em mente: 1) para lidar direta e especificamente com as necessidades acadêmicas dos meus alunos; e 2) para dar-lhes um sentido de autodeterminação e a possibilidade de eles participarem no próprio processo de ensino-aprendizagem, no qual passam a desempenhar um papel mais ativo. Usando esse modelo, posso atender às necessidades dos meus alunos de maneira interativa, rigorosamente pesquisada e que remete diretamente às suas expectativas e aspirações acadêmicas. Em vez de receber quase toda sua informação de um livro texto que provavelmente não foi escrito pensando neles, os meus alunos agora têm à sua disposição informação formal sobre a língua-alvo que de fato reflete os seus próprios insumos, necessidades e aspirações.

Com base na minha experiência na Universidade de Brasília, posso afirmar que a melhora em termos de disposição na sala de aula por parte dos alunos tem sido significativa e visível. Isso acontece, creio eu, porque esses estudantes podem ver algo deles mesmos no que está sendo apresentado na aula. O projeto do curso deixa de ser elaborado apenas pelo professor ou pelo autor do livro texto, e passa a ser construído pelos próprios alunos também. Os alunos invariavelmente se orgulham desse projeto de grupo e na maioria das vezes atingem um nível de desempenho bastante alto, geralmente bem melhor do que se um modelo mais passivo, menos interativo e menos envolvente fosse usado.

Diretrizes para Aulas de Literatura

Independentemente da disciplina, acredito que o ato de aprendizagem é um processo de criação e colaboração, tanto para o professor como para os alunos. Como professor de literatura, a minha função primordial é fornecer oportunidades aos meus alunos para que eles possam compartilhar na análise de textos literários e culturais da língua-alvo e na produção de crítica literária e cultural da civilização estrangeira em questão de forma a fomentar reflexão crítica e imaginativa. No melhor dos casos, essa situação pedagógica motiva todos os participantes a desenvolverem sua curiosidade, a contribuírem ativamente para o projeto de classe e a valorizarem tanto suas próprias colaborações como as colaborações dos outros membros do grupo. Quando leciono literatura, leciono com esses objetivos em mente.

Além de tentar desenvolver nos meus alunos uma apreciação estética pela literatura em questão, o meu objetivo é motivá-los a desenvolver a habilidade de ler cuidadosamente, de pensar criticamente e de analisar de maneira bem informada a literatura e cultura da língua-alvo. Tento induzi-los a aplicar essas habilidades e técnicas (i.e., leitura cuidadosa, pensamento crítico e escrita bem elaborada) não somente às tarefas da aula mas também às matrizes sociais e culturais nas quais eles vivem, especialmente quando as comparamos e contrastamos com o tópico da disciplina. Como produto de um ambiente internacional, tenho experiência direta que confirma que uma das formas mais gratificantes de aprender sobre a nossa própria cultura, país e literatura é estudando a literatura e cultura de outras civilizações em um contexto comparativo. Tanto nas minhas aulas de literatura como nas de língua, estou sempre tentando compartilhar com os meus alunos o meu próprio senso de admiração e maravilhamento com relação ao mundo e terras, culturas e povos diferentes.

O método pedagógico que uso nas minhas aulas de literatura parte da premissa de que certas tarefas fundamentais precisam ser executadas antes que possamos obter uma compreensão e apreciação razoável de um texto literário, especialmente um texto de tradição literária estrangeira. O texto em questão deve ser cuidadosamente examinado a partir de três perspectivas distintas:

  1. Análise textual – Esta análise envolve talvez a tarefa mais fundamental e importante no processo de crítica literária: a leitura cuidadosa e a explicação do texto propriamente dito;

  2. Análise cultural – Esta análise requer que coloquemos a literatura em questão no contexto cultural apropriado, para que possamos derivar dessa premissa informações relevantes para a nossa compreensão do texto;

  3. Análise histórica – Esta análise se ocupa das circunstâncias históricas (pessoais, sociais e literárias) que possivelmente afetaram a produção da literatura em questão, os movimentos intelectuais e literários que a precederam e se seguiram, e as influências que esta poderia ter sofrido.

Modus Operandi de Aulas de Literatura

Vejo a mim mesmo como um mediador-facilitador no processo descrito acima e para esse fim estruturo as minhas aulas de literatura de tal forma a permitir que os meus alunos possam desempenhar um papel importante no processo de moldar o rumo e formato delas. As minhas aulas de literatura são invariavelmente estruturadas em torno de discussões e a maioria tem o formato de seminário.

Além de lidar com questões textuais, culturais e históricas de relevância sobre a literatura em questão (especialmente como essas questões usam e se beneficiam de abordagens pós-estruturalistas tais como a Desconstrução e o Novo Historicismo), acredito que parte da minha função como professor de literatura é também facilitar o crescimento das habilidades intelectuais e de expressão oral e escrita dos meus alunos na medida em que eles se tornam críticos e pensadores maduros e independentes. Esforço-me para desenvolver nos meus estudantes aptidões e atitudes que possam vir a servir-lhes em diferentes áreas de suas vidas, especialmente se essas áreas envolverem grupos étnicos, lingüísticos ou nacionais distintos, no seu próprio país ou no exterior. Na medida em que eles conseguem dominar essas habilidades críticas e aprendem a aplicá-las tanto à literatura e cultura da língua-alvo e às suas próprias vidas, acredito que se tornam não somente melhores estudantes mas também melhores indivíduos.

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    Recife, 09 de novembro de 2002

    João Sedycias, Ph.D.
    Professor de Inglês e Espanhol e
    Coordenador da Área de Inglês (Língua e Literatura)
    Departamento de Letras, Universidade Federal de Pernambuco



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