Como implementar um programa de português numa

faculdade de estudos liberais: Problemas e estratégias

1. Introdução —

A tendência no campo das línguas estrangeiras nos Estados Unidos está finalmente tomando um rumo diferente, depois de quase duas décadas de baixa procura por parte dos estudantes de nível superior. Como resultado desta mudança, muitas faculdades e universidades norte-americanas estão se deparando com uma situação que é problemática mas ao mesmo tempo gratificante e muito bem-vinda: a de ter que acomodar um número crescente de alunos que estão procurando cursos em línguas estrangeiras. Muitas destas escolas acham prudente do ponto de vista pedagógico e administrativo aumentar as suas ofertas em línguas estrangeiras e têm buscado maneiras de expandir os seus programas. A expansão de um programa de línguas estrangeiras que já esteja funcionando pode tomar várias formas, tal como o acréscimo de um componente de auto-ensino ou a inclusão de uma língua de uma família lingüística que já se ensine no programa. Como o acréscimo de um componente de auto-ensino requer, além do compromisso firme por parte de uma administração que esteja disposta a dar o devido apoio financeiro, a participação de professores especializados nesta forma de ensino/aprendizagem e um fluxo constante de falantes nativos que serviriam como tutores, a segunda alternativa, i.e., a inclusão de uma língua da mesma família que já se ensine no programa é mais realista e viável. Pelo fato de não envolver o uso de tantos recursos como outras formas de expansão, essa foi a opção que escolhemos na faculdade em questão e é o tópico que examinarei neste artigo.

O objetivo do meu estudo é relatar a minha experiência em projetar e implementar um programa de língua portuguesa numa pequena faculdade de estudos liberais nos Estados Unidos. Pretendo compartilhar com professores e administradores do campo informações relevantes ao tema que, espero, possam lhes vir a ser úteis caso algum dia tenham que montar e implementar um programa como este.

2. Onde tudo começou: uma faculdade de estudos liberais como muitas outras —

A escola onde eu ensinava é uma pequena faculdade de estudos liberais de aproximadamente mil alunos localizada na cidade de Spartanburg, no estado da Carolina do Sul, Estados Unidos. Embora a Faculdade de Wofford tenha certas características únicas, a grosso modo é uma escola como muitas outras do mesmo tipo.

A faculdade tem um corpo discente pequeno, mantém uma afiliação visível mas não muito rigorosa com uma instituição religiosa (a Igreja Metodista), e tem como objetivo dar aos seus alunos uma educação liberal compreensiva, colocando ênfase especial nas humanidades. Embora tenha bons programas em biologia e negócios, a faculdade não tem como prioridade fornecer treinamento técnico. Como a administração durante a minha gestão costumava dizer: “o nosso objetivo é fornecer uma excelente educação para um número seleto de alunos, ao contrário de tentar ser tudo para todos.”

Esta escola, portanto, representa em muitos aspectos a maioria das pequenas faculdades de estudos liberais nos Estados Unidos e espero que as presentes reflexões sobre a minha experiência lá possam ser úteis para professores de português em outras instituições onde se planeje ensinar o português como língua estrangeira, tanto nos Estados Unidos como em outros países.

3. No começo: Por que o português? —

O projeto de implementação de um programa de língua portuguesa apresentado por mim à administração da Faculdade de Wofford consistia de várias partes:

A última coisa que desejo fazer aqui é tentar convencer quem já está convencido da utilidade e necessidade de se expandir o ensino do português como língua estrangeira no sistema universitário norte-americano. Porém, poderá nos ser útil rever os detalhes do argumento usado perante a administração da minha antiga faculdade, para que futuros professores e administradores possam ter uma idéia do que pode ser usado numa situação similar subseqüentemente em outra instituição.

4. O argumento —

Como uma das línguas neo-latinas menos conhecidas nos Estados Unidos, o português ocupa por um lado uma posição muito difícil no que diz respeito a qualquer esforço por parte do corpo docente em convencer alunos e administradores em apoiar a idéia de implementar um programa de língua portuguesa. Entretanto, por outro lado, devido à proximidade lingüística e histórica que sempre teve com o espanhol — que é sem dúvida nenhuma a língua estrangeira mais comumente ensinada nas escolas secundárias e universidades norte-americanas — o português ocupa a posição invejável de ser um, ou mesmo o, candidato ideal quando se contempla a expansão de um programa de línguas estrangeiras. Isso é verdade principalmente se a administração estiver planejando acrescentar a um programa já em funcionamento uma língua de uma família lingüística que já se ensine na instituição. Esta forma de expansão será de muito interesse para pequenas faculdades de estudos liberais com menos recursos à disposição do que grandes universidades de pesquisa.1 Para aquelas escolas que já oferecem cursos de espanhol e estão considerando uma expansão em seu programa, o português é um candidato ideal devido aos seguintes fatores:

Além disso, o estudo do português deve ser corretamente visto como sendo de grande importância em termos políticos, econômicos e culturais para os Estados Unidos devido à posição que a língua portuguesa ocupa no mundo hoje:

5. A gênese do programa —

A semente do programa de português na Faculdade de Wofford teve origem na minha experiência pessoal em ensinar informalmente português para alunos de espanhol nesta escola. Com base na minha experiência com esses estudantes, eu estava convecido da viabilidade de usar alunos de espanhol e de outras línguas neo-latinas como promissor grupo inicial para o programa de português.

Depois de ter dialogado com os colegas do departamento e ter obtido informação, material e assessoramento de colegas em outras universidades, achei que tínhamos a massa crítica necessária em termos de instrutores qualificados (i.e, dois professores de espanhol com a devida capacitação em português como língua estrangeira), número de alunos e formação desses para expandir as minhas aulas informais para uma base mais ampla, disponibilizando-as assim para mais alunos.

6. Os primeiros passos —

Uma vez tomada essa decisão, o primeiro passo foi identificar e entrar em contato com os alunos que formariam a base do programa. Todos os alunos da Faculdade de Wofford que haviam feito cursos de terceiro e quarto ano de espanhol ou francês foram contactados através do correio universitário.

Decidimos nos concentrar nesses alunos porque achávamos que o fato de eles possuirem o conhecimento de uma língua neo-latina facilitaria bastante a aprendizagem e o domínio de português dos mesmos. O desempenho desses alunos na nossa primeira classe de português foi bem melhor do que a média, o que corroborou essa conjetura.

Com o objetivo de alcançar o maior número de alunos possível e deixar esses alunos a par das vantagens de estudar português, colocamos anúncios e posters por todo o campus da faculdade. Queríamos ter certeza de que havíamos feito tudo ao nosso alcance para contactar os candidatos que tivessem passado despercebidos na campanha feita através do correio universitário.

O retorno foi muito encorajador. Onze alunos que haviam feito cursos de espanhol e um que havia estudado francês mostraram interesse em aprender português e expressaram a intenção de se matricular numa classe para principiantes, caso a língua fosse oferececida no semestre seguinte.

O próximo passo consistiu em entrar em contato com a administração com os dados que nós havíamos obtido. Levamos a nossa proposta para a implementação de um programa de português para o comitê apropriado e apresentamos a informação relativa a:

Seguindo o conselho do comitê de currículos, que havia tido uma reação favorável em relação à nossa proposta, a administração nos deu permissão para seguir adiante, e nós começamos a estruturar o programa.

7. Nasce um programa —

Como base para o nosso programa, os seguintes objetivos foram estabelecidos:

Já que a maioria dos alunos na primeira classe de português tinha uma boa formação em espanhol, o nosso modus operandi consistiu basicamente em instrução intensiva e acelerada, fazendo uso, sempre que fosse possível, do conhecimento de espanhol desses. Conseguimos fazer isso com freqüência, especialmente quando estávamos ensinando estruturas que são iguais ou similares em ambas línguas. Por exemplo, gastamos pouco tempo estudando estruturas tais como ser e estar, o subjuntivo (com a exceção do futuro, que ainda é usado em português mas praticamente já não se usa em espanhol), o pretérito e o imperfeito, ou por e para porque essas estruturas têm muito em comum em ambas as línguas.

Como o tempo das aulas não foi desperdiçado com explicações gramaticais prolongadas, pudemos nos concentrar no que eu creio ser o verdadeiro objetivo de qualquer classe de língua estrangeira: o desenvolvimento da proficiência por parte dos alunos.

É pouco provável que no futuro as outras classes de português para principiantes tenham a mesma composição discente desta primeira. Por isso, o professor terá que adaptar a abordagem e o ritmo a serem usados em cada classe de acordo com a formação dos alunos. No futuro o professor pode, por exemplo, ter uma classe composta principalmente de alunos de francês. Neste caso, o professor se beneficiaria não com a familiaridade dos seus alunos com a sintaxe de outra língua neo-latina, o que seria o caso com o espanhol, mas, pelo contrário, pelo conhecimento destes de uma língua estrangeira cuja fonologia tem muito em comum com o português, que é o caso do francês.

O método de ensino que usamos foi uma combinação das abordagens áudio-lingual e comunicativa. Enfatizamos o uso ativo e predominante da língua alvo na sala de aula para incrementar ao máximo o desenvolvimento da proficiência dos alunos. Na nossa primeira turma, tivemos um grupo de indivíduos tanto animados como trabalhadores que sempre estavam dispostos a por em prática o português que estavam aprendendo.

Para dar aos meus alunos a oportunidade de praticar a língua alvo com alguém além do professor, eu levava regularmente visitantes e falantes nativos para a classe. A maioria desses visitantes expressaram surpresa e alegria ao ver o quanto os nossos alunos haviam progredido em tão pouco tempo, principalmente porque a Faculdade de Wofford está localizada numa parte remota da Carolina do Sul, aos pés das montanhas Piedmont, uma região conhecida historicamente pela sua homogeneidade étnica e lingüística e pela distância que sempre manteve de línguas e culturas estrangeiras.2

8. Considerações finais —

Concluindo, gostaria de dizer que a implementação do programa de língua portuguesa na Faculdade de Wofford foi uma experiência tanto laboriosa como gratificante para mim, uma experiência que eu estaria disposto a levar a cabo novamente, se a oportunidade e os devidos recursos estiverem à minha disposição.

Existem certas considerações básicas que devemos ter em mente antes de tentar por em prática um plano de implementação de um programa de português numa faculdade de estudos liberais. Abaixo forneço uma lista de passos a serem tomados e a ordem em que devem ser executados:

O programa de língua portuguesa na Faculdade de Wofford estava no seu terceiro ano quando a primeira versão deste artigo foi escrita (1987) e, embora não seja tão grande como o programa de espanhol ou francês, de qualquer forma está com ótima saúde e continua crescendo.

Eu deixei a Faculdade de Wofford em 1987, mas devido ao retorno muito positivo por parte dos alunos e professores que haviam participado do programa de português, a administração da faculdade muito sabiamente decidiu não permitir que o programa se extinguisse. A mesma ação há alguns anos poderia parecer extravagante ou até mesmo impensada, mas naquele momento (i.e., 1987) não resta dúvida que foi uma manobra administrativa prudente e vantajosa. A frase "o mundo está se tornando uma vila global" que, de tão repetida, quase já se tornou cliché, soa mais verdadeira agora do que nunca e os Estados Unidos corretamente reconhecem que o país não pode permanecer ignorante de outras línguas e culturas sem pôr em risco a posição de liderança mundial que disfruta há mais de cinqüenta anos.

Devido às posições geopolíticas e econômicas que países de língua portuguesa tais como o Brasil ocupam hoje no mercado mundial (o Brasil possui a quinto maior PIB do mundo), a necessidade de colocar a língua portuguesa à disposição de mais pessoas nos Estados Unidos adquire uma nova dimensão, cuja importância será expressada devidamente apenas na medida em que esse idioma for acrescentado aos currículos de línguas estrangeiras em mais escolas naquele país.

Notes

1 No sistema universitário dos Estados Unidos, as faculdades de estudos liberais e as universidades de pesquisa são instituições de natureza e com funções bastante diferenciadas. As faculdades de estudos liberais se concentram quase exclusivamente no ensino, dedicando pouco tempo ou recursos à pesquisa científica e geralmente dando ênfase no seus currículos às humanidades e ciências sociais. Por outro lado, as grandes universidades de pesquisa nos Estados Unidos se encarregam da produção de novo conhecimento nos mais diversos campos (ciências exatas, humanidades, ciências sociais, artes, etc.) e principalmente do desenvolvimento tecnológico do país, tanto em termos de investigação científica como na formação de futuros pesquisadores. Porém, essas instituições também têm que manter altos níveis de qualidade no ensino. Essas universidades geralmente são as beneficiárias de um extenso e bem financiado sistema de bolsas e estímulos à pesquisa oriundos do governo, de fundações filantrópicas e do setor privado.

2 A região do Piedmont na Carolina do Sul e Carolina do Norte é uma área bastante isolada geografica e culturalmente do resto dos Estados Unidos. Está situada no sopé das Montanhas Apalaches e muitas de suas cidades são de difícil acesso. Essa região da parte sul dos Estados Unidos foi colonizada por imigrantes ingleses, irlandeses e escoceses nos séculos 17-19. Sempre manteve uma certa distância da cultura predominante nas áreas mais cosmopolitas da América do Norte, e mais ainda de qualquer influência ou tendência estrangeira, ao ponto de ser vista pelo resto dos norte-americanos como uma das regiões mais isoladas e atrasadas do país. Do ponto de vista lingüístico a região do Piedmont e das Montanhas Apalaches é muito importante porque é aí — provavelmente devido à homogeneidade étnica e lingüística que sempre reinou na região — onde se encontram hoje os últimos vestígios vivos do inglês elisabetano.



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