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[The image includes, from left to right: back flap, back cover, spine, front cover, and front flap]A América Hispânica no imaginário literário brasileiro / Brasil en el imaginario literario hispanoamericano
Spanish America in the Brazilian Literary Imaginary / Brazil in the Spanish-American Literary ImaginaryPublicado em outubro de 2007 pela Editora Universitária UFPE, Recife, Brasil.
Published in October 2007 by UFPE University Press, Recife, Brazil.
APRESENTAÇÃO
Pouco antes de receber os originais desta belíssima e importante obra, estive em Lima, para a Feira do Livro que lá se realiza. À ocasião, ouvi de um jovem escritor peruano um comentário que muito me impressionou. Falando sobre as relações entre Brasil e Peru, disse ele: "Nossos países são vizinhos, mas é como se vivêssemos de costas uns para os outros, peruanos e brasileiros".
Uma observação que, diga-se de passagem, corresponde a uma sensação generalizada entre intelectuais latino-americanos. É como se existisse uma espécie de barreira entre nós, como se a cordilheira do Andes ou a Serra do Mar acompanhassem a fronteira do Brasil impedindo a comunicação com os países limítrofes. É claro que atrás disso existe um passado histórico e também diferenças culturais. O passado histórico é bem conhecido, ao menos dos manuais escolares; e em regiões como o Rio Grande do Sul, onde vivo, é ainda parte da memória coletiva, pela simples razão de que nosso estado não era Brasil, tornou-se Brasil. Tudo começou com o estranho Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, e pelo qual boa parte do mundo foi, com a intermediação papal, dividido entre Portugal e Espanha. Pelo vago, complicado documento, seriam de Portugal as terras até cem léguas de Açores e de Cabo Verde; da Espanha as restantes. Só que Açores e Cabo Verde são dois arquipélagos diferentes, a uma boa distância um do outro, e portanto não serviriam como marcos. Para resolver o problema foi traçada a famosa Linha de Tordesilhas, que tornava o atual Rio Grande do Sul território espanhol. Mas esse meridiano era ideal. Não correspondia a muros, ou cercas, ou mesmo a acidentes geográficos, de modo que a demarcação deixava dúvidas. Por causa disso, nenhuma iniciativa de ocupação foi tomada. Mesmo porque o Rio Grande do Sul fica na ponta do Brasil, distante das regiões que foram povoadas primeiro: o Nordeste, Rio de Janeiro, São Paulo. A isto se acresce uma terceira dificuldade, de ordem operacional. A costa do Rio Grande do Sul é reta, arenosa, ventosa (veranear ali em épocas de “nordestão" é um ato de heroísmo), sem portos ou ancoradouros que facilitassem o acesso de embarcações. Essa situação não duraria muito tempo. Em começos do século dezessete jesuítas espanhóis, vindos do Paraguai, estabeleceram reduções indígenas em vários pontos da região. Os portugueses não ficaram atrás; lá de cima, de São Paulo, vinham os bandeirantes paulistas, em busca de escravos indígenas para a lavoura, numa época em que ainda não era possível "importar" escravos negros da África. Os melhores lugares para encontrar índios eram as reduções jesuíticas, e os paulistas não hesitaram: partiram para o ataque.
Por volta de 1640 os jesuítas foram forçados a abandonar o Rio Grande. Deixaram à solta o gado criado nas reduções, gado este que, bravio, reproduziu-se extraordinariamente: era a vacaria del mar. A "vacaria", que deu nome a uma cidade, se constituiu na primeira riqueza natural da região e foi o ponto de partida para o latifúndio gaúcho, do qual emergiram chefes militares e caudilhos famosos. Por outro lado o estuário do Rio da Prata era o escoadouro para a prata das famosas minas de Potosi. Ou seja: já havia o que disputar na região. O cenário estava pronto para o conflito bélico em conseqüência do qual os espanhóis consolidaram seu domínio sobre boa parte do território do atual Rio Grande do Sul. Os portugueses voltaram à carga, conquistando, em 1801, as terras que haviam sediado as Missões. A paz entre Portugal e Espanha foi selada pelo Tratado de Badajoz, ao qual se seguiram as lutas que tornaram Argentina e Uruguai independentes da Espanha. Surgiu então a Província de São Pedro que, em 1835, rebelou-se contra o governo central. A Revolução Farroupilha durou dez anos e que poderia ter resultado em mais uma república independente, a República do Piratini. Mas o Brasil, ao contrário da América hispânica manteve-se coeso, e esta é mais uma diferença que sem dúvida pesa na balança, porque resultou daí um país que é classicamente descrito como de "dimensões continentais", dimensões estas que claramente perturbam os vizinhos.
Além deste passado tumultuado, temos a diferença de idiomas, as culturas diferentes, os interesses econômicos por vezes contraditórios, o que até hoje impediu a ampliação do Mercosul. E é claro que a cultura sofre a influência disso. A música brasileira tem livre trânsito na América hispânica, mas nas livrarias não há muitas obras de autores brasileiros. Isto coloca em cheque a famosa frase de Luis Saenz Peña, presidente da Argentina cujo centenário de falecimento, aliás, decorre este ano, e que dá nome a uma praça do Rio de Janeiro. Por boas razões: falando sobre argentinos e brasileiros, disse Saenz Peña: "Tudo nos une, nada nos separa". Não é bem assim. Conflitos entre Brasil e Argentina ocorreram e deixaram sua marca no folclore popular. Basta entrar na Internet e verificar a quantidade de piadas brasileiras sobre argentinos, evidência dos estereótipos comuns (os "hermanos" também têm expressões pouco agradáveis sobre os brasileiros). Isto sem falar na rivalidade esportiva: cada jogo de futebol entre Brasil e Argentina é uma guerra.
E, no entanto, partilhamos situações comuns, por exemplo, à época das ditaduras militares quando esteve em curso a famigerada Operação Condor. E mesmo a ditadura não impediu a rivalidade como se evidenciou no caso da construção da usina de Itaipu, acompanhada de muito bate-boca. Ou seja: mesmo aí estava presente a perturbadora questão: quem é a potência hegemônica na América Latina? Mais recentemente tivemos os atritos envolvendo Bolívia e Venezuela.
Tudo isto mostra a importância da presente coletânea, que reúne um notável elenco de professores e pesquisadores. De parabéns o Professor João Sedycias pela organização, de parabéns os ilustres colaboradores. Como resultado de seu trabalho temos aqui uma abordagem do processo de integração latino-americana através de sua dimensão cultural, mais precisamente da literatura. E a literatura, disse-o um grande autor que aqui figura – Mario Vargas Llosa – é a história não-oficial de um país, de uma região. Quando se considera os erros e as distorções resultantes da ação daqueles que pretendiam redigir essa história oficial (aliás, título de um pungente filme argentino sobre a ditadura), nos damos conta de que precisamos, sim, sondar o imaginário de nossos povos, coisa que os escritores, até por dever de ofício, sabem fazer. Precisamos ir fundo na análise de nossos perfis culturais. O que está em causa, ao fim e ao cabo, é a compreensão mútua entre os povos do continente. O que está em causa é a maneira pela qual deixaremos de estar de costas uns para os outros e começaremos aquele processo de mútua descoberta que é essencial para o real progresso da região.
Moacyr Scliar
Porto Alegre, Brasil
PREFÁCIO
Em setembro de 2005 tivemos a grata satisfação de publicar, através da Parábola Editorial de São Paulo, o livro O ensino do espanhol no Brasil, com o intuito de analisar e refletir sobre as atuais condições do ensino-aprendizagem da língua espanhola no nosso país. Sabemos que a situação atual do espanhol em terras brasileiras é de progresso e prestígio crescentes. O idioma de Cervantes é uma das línguas estrangeiras mais procuradas pelos estudantes brasileiros, o que se reflete na demanda de cursos em todos os níveis, principalmente naqueles oferecidos por instituições de ensino superior. O ensino do espanhol no Brasil teve como objetivo principal ajudar a suprir uma necessidade premente identificada há bastante tempo nos círculos pedagógicos brasileiros e com base na reação da comunidade acadêmica até a presente data, temos razões para acreditar que os nossos objetivos estão sendo plenamente alcançados.
Agora, é com muito prazer que trazemos ao mercado acadêmico brasileiro mais uma coletânea de artigos que lida com a questão do ensino do espanhol e das literaturas em língua espanhola no nosso país. Para atender a demanda crescente de alunos e professores de espanhol no Brasil por estudos e materiais que problematizem questões referentes à cultura, língua e literatura, decidimos enfocar, desta vez, a temática da literatura brasileira em cotejo com sua homóloga hispano-americana. Mais especificamente, pretendemos investigar as relações literárias e culturais entre o Brasil e seus vizinhos hispanofalantes.
Em termos gerais, este livro é organizado em duas linhas principais. A primeira lida com a maneira como o Brasil olha na direção da América Hispânica: os escritores e leitores brasileiros frente à história, sociedade, cultura e literatura da América hispanofalante; as influências que o mundo hispano-americano tem exercido na literatura e, principalmente, no imaginário literário brasileiro; a interface e o relacionamento entre esses dois mundos vizinhos, porém muitas vezes tão culturalmente distantes e isolados; os encontros e desencontros literário-interpretativos entre esses dois importantes grupos lingüísticos; como os brasileiros têm "lido" os seus irmãos hispanofalantes desde o período colonial até o presente e como essa "leitura" tem se manifestado na nossa literatura e no nosso imaginário literário.
A segunda linha apresenta a mesma problemática descrita acima, porém do ponto de vista dos países hispanofalantes da América Latina. Seria o outro lado da moeda, a parte complementar de uma dialética literário-cultural, ou, no contexto do que foi postulado anteriormente, apenas "la mirada de vuelta que Hispanoamerica lanza hacia Brasil".
Mais especificamente, o livro é divido em três partes. A primeira parte lida com questões textuais ou de história literária a partir de uma perspectiva historiográfica, como é o caso do primeiro artigo da coletânea, "Quando as Américas se reinventam", um perspicaz e elegante estudo do professor Lourival Holanda, que abre – por assim dizer – o livro com chave de prata. A segunda parte aborda temas culturais e literários e a terceira trata de tópicos literários num contexto comparado, geralmente cotejando a obra de dois autores, como é o caso do artigo "Escritoras latino-americanas: Juana e Silvina, duas altas vozes" da novelista e crítica literária Luzilá Gonçalves Ferreira, que fecha – voltando à metáfora usada anteriormente – o livro com chave de ouro.
Este trabalho pioneiro representa um importante marco no estudo do espanhol e das literaturas em língua espanhola no nosso país. É possivelmente o primeiro estudo de crítica e história literária do Brasil e da América Hispânica a enfocar de maneira sistemática e bem definida essa temática a partir da perspectiva do inter-relacionamento e influência mútua dos dois universos lingüísticos mais importantes da América Latina.
Gostaria de agradecer a gentileza e a receptividade do escritor Moacyr Scliar, que concordou em fazer a apresentação deste livro. Mesmo com uma agenda sem dúvida repleta de compromissos pessoais, acadêmicos e profissionais – na sua tripla função como médico, professor e escritor – Moacyr não hesitou em nos dar o apoio do qual um projeto como o nosso tanto necessita para se tornar realidade e que muitas vezes infelizmente no nosso país não conseguimos receber das agências oficiais, dos órgãos de fomento ou até mesmo dos nossos pares na academia. Portanto, a compreensão e a largesse de espírito do escritor muito sensibilizaram a mim e aos outros colaboradores deste livro. Em reconhecimento, decidimos dedicar a nossa obra a este insigne conhecedor das dimensões mais recônditas da alma brasileira, da sua história e, principalmente, das suas "outras" histórias, dentre as quais figura a saga dos anusim (אנוסים) os incontáveis "Rafaéis Mendes" que, mesmo sob condições adversas, contribuíram de forma significativa para a construção da identidade brasileira.
Com relação ao tema principal deste livro, talvez melhor que qualquer outro escritor brasileiro, Moacyr Scliar conhece intimamente o espaço fecundo e complexo que ao mesmo tempo divide e liga os mundos brasileiro e hispano-americano. Como gaúcho, ele nunca esteve muito longe da fronteira lingüística e geográfica que separa o Brasil dos seus vizinhos hispanofalantes. Dessa posição privilegiada de liminaridade, tanto do ponto de vista físico como cultural, através de sua obra, Scliar nos brinda com uma apreciação clara e bem definida de alguns dos temas que são problematizados neste livro, principalmente aqueles que lidam com a questão do éthos da literatura brasileira frente à sua homóloga hispano-americana. Também, pelo fato de ter um pé em vários universos culturais distintos, usando cada um deles como fonte perene de inspiração, ninguém melhor do que Moacyr Scliar para aquilatar o nosso esforço de "ir fundo na análise de nossos perfis culturais" e através dessa reflexão "aprofundar a compreensão mútua entre os povos do continente". Sondar o imaginário dos povos brasileiro e hispano-americano e contribuir para o "processo de mútua descoberta" entre os dois é o que esperamos ter realizado com este trabalho.
Gostaria, também, de registrar o meu carinhoso agradecimento às Professoras Gilda Lins e Maria José de Matos Luna, Diretora e Editora Executiva da Editora Universitária UFPE respectivamente. Repetindo a experiência positiva que tive com o escritor Moacyr Scliar, encontrei nessas duas excelentes e prestativas profissionais o apoio, a orientação e o incentivo necessários para tornar este projeto realidade. Juntamente com o programador visual Sérgio Siqueira, as Professoras Gilda e Maria José, com o acúmen e o profissionalismo que já marcam a sua gestão frente à Editora Universitária, estiveram diretamente envolvidas em cada aspecto da preparação e publicação deste livro e forneceram o insumo e o norteio essenciais para que pudéssemos levar o projeto a cabo com pleno êxito. Sem sua assistência, este volume não teria sido possível.
Prof. Dr. João Sedycias, Organizador
Professor Adjunto de Espanhol & Inglês
Departamento de Letras
Universidade Federal de Pernambuco
Recife, PE 50670-420, Brasil
&
Professor Titular de Espanhol & Inglês e
Chefe da Divisão de Humanidades
Faculdade do Condado de Essex
Newark, Nova Jersey 07102, EUA
E-Mail: sedycias@yahoo.com
Website: www.sedycias.com
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